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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O paternalismo que está por trás da Criança Feliz

Século XVIII. França. O cuidado com as crianças não é visto como algo importante. A imensa maioria dos bebês nascidos em Paris é entregue logo após o nascimento para amas[1], retornando à casa de seus pais apenas após a primeira infância. Cerca de 50% dessas crianças não atinge os 10 anos de idade. Os tempos são difíceis e a França precisa de homens para compor o exército, contudo, os jovens sobreviventes do descaso com a infância são em sua maioria pessoas doentes e fracas. Não por acaso, na mesma época surge um movimento de mulheres oriundas da aristocracia e da alta burguesia, denominadas “preciosas”, que começam a refletir sobre questões acerca da igualdade de gênero, fim de casamentos impostos, prazer sexual e, a partir disso, iniciam os questionamentos sobre o papel da mulher dentro da sociedade.

Neste cenário, estes dois fatos são encarados como as ameaças à França patriarcal: não há homens para compor a frente de batalha e as mulheres começam a dar sinais de emancipação.

É então que em 1762, Jean-Jacques Rousseau publica a obra Émile. O discurso trazido neste livro foi uma grande ferramenta para cristalizar ideias de que a família deveria ser fundada com base no amor materno. É um discurso altamente intelectualizado que naturaliza a função doméstica da mulher. Agora, as crianças são novamente cuidadas dentro de casa pelas suas mães. Numa solução que ao mesmo tempo que reduziu a mortalidade infantil também trouxe de volta as mulheres ao espaço privado.

2016. Brasil. O governo lança um programa ironicamente intitulado “Criança Feliz”. Também fundado na suposta preocupação com as crianças, o programa tem por objetivo promover o desenvolvimento infantil. O público alvo será as famílias beneficiárias do Bolsa Família (para gestantes e crianças até 3 anos) e do programa Prestação Continuada (para crianças até 6 anos que foram afastadas de suas famílias por medidas de proteção), portanto de baixa renda, que receberão visitas semanais de técnicos enviados pelo governo e os resultados destas visitas serão condicionantes ao recebimento dos aludidos benefícios. No discurso de lançamento do programa, ouvimos a primeira-dama enaltecer qualidades inatas que mulheres teriam ao exercer o papel de mãe. Além disso, ela se comprometeu a conversar com outras primeiras-damas e prefeitas sobre o programa, em uma explícita exclusão a participação de homens no que tange o cuidado com as crianças. Uma boa análise do discurso do lançamento deste programa pode ser lida aqui.

Foto de André Coelho

Três séculos depois. Países diferentes. Mas o mito do instinto materno é novamente usado para reforçar a ideia de que mulheres são maternais, que o seu lugar biológico é no cuidado. Mulher como primeira-dama e não como governante. Homens no espaço público e não se preocupando com os cuidados na infância. Não é pelas crianças. Nunca foi pelas crianças. Trata-se sempre de controle social. De medidas que docilizam, submetem e conformizam individualidades. Parece exagero? Então analisemos o programa Criança Feliz.

A motivação do programa foi resumida da seguinte forma:
"Estudos longitudinais de acompanhamento da população ano após ano mostram que as habilidades mais importantes se organizam muito cedo, depois elas têm mais dificuldade de se organizar, de se estabelecer. Então, o impacto que tem uma infância bem cuidada é enorme no desenvolvimento, na aprendizagem, na escola, no sucesso profissional, nas competências que o ser humano vai ter no restante da vida. Por isso que é importante a gente acoplar esse programa com o programa que trata com a população mais vulnerável, o Bolsa Família para poder impactar a longo prazo e essas famílias saírem da condição de pobreza, a longo prazo, quando seus filhos tenham um desempenho profissional melhor que o deles e ajuda toda a família a sair [da vulnerabilidade]."

Portanto, o programa foca em “habilidades importantes” que em um primeiro momento não traz um sentido muito preciso, mas que após se traduz também em “sucesso profissional”, lembrando que o público alvo do programa é a “população mais vulnerável”. Que tipo de programa é esse que tem dentro de suas principais medidas o acompanhamento SEMANAL e DOMICILIAR da população de baixa renda com fim de promover sucesso profissional nas crianças??? Ainda, importante destacar que a apresentação do projeto foi voltado às mulheres, sempre apelando para o mito do instinto materno, e inclusive convocando apenas mulheres da administração para compor o comitê que traçará os rumos do programa.

Este programa evidencia que o governo entende que a responsabilidade pelas crianças é exclusivamente das mães e que estas, por serem pobres, se mostram incapazes de cuidar de seus filhos. Escancaradamente, trata-se de um programa paternalista que sem ao menos ouvir essas mulheres, dita mecanismos que irão influenciar diretamente nas suas vidas. Não há outra explicação. Se houvesse, estaríamos falando em programas que incentivassem a participação dos homens na criação dos filhos através da criação da licença parental ou mesmo da ampliação da licença paternidade. Ou então em programas que investissem na criação de creches com educadores bem remunerados e com estrutura para atender bem as crianças. Ou mesmo algum investimento em transporte público de modo que os pais não perdessem tanto tempo no trajeto casa-trabalho. Poderia ser também um programa que garantisse saneamento básico e uma estrutura de moradia que garantisse a saúde dessas crianças. Ainda, se o problema fosse dificuldade no acesso à informação e apoio, que se investisse na contratação de médicos da família, de psicólogos e de assistentes sociais que estivessem à disposição quando procurados e não que estas visitas fossem feitas de maneira invasiva e obrigatória como se está sendo proposto.

Mas quando o governo entra SEMANALMENTE na CASA da população pobre com fim de orientar a MULHER sobre a criação dos filhos, a mensagem que temos é que a única responsável pela criação dos filhos é a mãe. Que os pais não são foco do programa, tampouco a estrutura da cidade importa para que as crianças cresçam em segurança, tanto afetiva como material. Ou seja, o programa isenta o GOVERNO e os HOMENS dos cuidados com os filhos e implanta um projeto PATERNALISTA[2] que culpabiliza mulheres pobres e mães. Culpabiliza porque o programa é focado em um atendimento pedagógico à mulher mãe fazendo crer que qualquer “desvio” na conduta dos seus filhos advém de algum desvio na sua própria conduta. Como se a falta de estrutura, a qual deveria ser prestada pelo Estado, não fosse o principal causador de lesões aos direitos das crianças.

Criança Feliz nada mais é do que um programa de controle social, que tem por fim garantir a conformidade do comportamento dos indivíduos, com traços tão poucos sofisticados que fariam Michel Foucault ruborizar.

E é também um programa que fere a autonomia da mulher periférica, em sua maioria mulheres negras. Além de não terem direito sobre o próprio corpo - já que o aborto é ilegal e inseguro para as mulheres pobres-, além de serem torturadas no momento de parir - em vista das práticas normatizadas de violência obstétrica seguidas pela maioria dos hospitais públicos-, agora essas mulheres receberão visitais semanais de agentes do governo que lhe dirão como devem criar seus filhos!

E concordo com o discurso de Marcela Temer quando diz que a infância é uma fase fundamental da vida de qualquer ser humano. Concordo também que deva ser um programa voltado ao atendimento das mulheres, já que elas são maioria das beneficiárias do Bolsa Família e frente ao tão frequente abandono paterno. Contudo, há maneiras de atender a primeira infância sem imputar às mulheres a função exclusiva no cuidado e sem ferir a sua autonomia. É possível também olhar para a criança desde o nascimento enquanto ser humano portador de direitos e não apenas como um devir, um projeto de investimento.

É preciso apoio e estrutura para conseguir criar os filhos. Não será através da tutela das mulheres periféricas que as crianças terão uma infância com mais amparo. O posto de belas, recatadas e do lar foi muito bem aceito a três séculos, masnão hoje. Não. Hoje não passarão!




[1] 1780: o tenente de polícia Lenoir constata, não sem amargura, que das 21 mil crianças que nascem anualmente em Paris, apenas mil são amamentadas pela mãe. Outras mil, privilegiadas, são amamentadas por amas-de-leite residentes. Todas as outras deixam o seio materno para serem criadas no domicílio mais ou menos distante de uma ama mercenária. (BADINTER,1981).
[2] Paternalismo, em sentido lato, é um sistema de relações sociais e trabalhistas, unidos por um conjunto de valores, doutrinas políticas e normas fundadas na valorização positiva da pessoa do patriarca.
Em sentido estrito, o paternalismo é uma modalidade de autoritarismo, na qual uma pessoa exerce o poder sobre outra combinando decisões arbitrárias e inquestionáveis, com elementos sentimentais e concessões graciosas.
Para o Direito Constitucional, o Estado paternalista é aquele que limita as liberdades individuais dos seus cidadãos com base em valores axiológicos que fundamentam as imposições estatais. Desta maneira, se justifica a invasão da parcela correspondente à autonomia individual por parte da norma jurídica, baseando-se na incapacidade ou idoneidade dos cidadãos para tomar determinadas decisões que o Estado julga corretas. (Fonte: Wikipedia)
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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Por que ser mãe na política incomoda tanto?



A maternidade e a defesa da infância estão em pauta este ano na campanha eleitoral à Prefeitura de Curitiba e vem sendo trazidas pela candidata do PSOL, Xênia Mello. E, além disso, essas questões têm sido abordadas de maneira bastante honesta e política. Sim, política no sentido de afirmar que a maternidade e a infância são pautas que DEVEM fazer parte da vida política, sendo pensadas e consideradas em todas as decisões nas esferas legislativas e administrativas.

Desde sua última campanha em 2014, Xênia já fazia questão de mostrar que a maternidade era uma de suas pautas e como feminista que é nunca deixou de lado a máxima: o pessoal é político!



Ocorre que na atual campanha tenho visto muitas críticas em relação ao discurso que a Xênia adotou. Embora ela também afirme repetidas vezes que é negra e tem origem periférica, o que parece mesmo incomodar é sua condição de mãe aliada as falas tão frequentes sobre seu filho. Ora, ainda que as questões raciais e de classe sejam quase sempre silenciadas nos debates políticos, é sintomática a invisibilização das mulheres mães.

Quem a crítica pelo discurso ainda não entendeu que a maternidade e a infância devem ser pautas políticas. Não entendeu que durante toda a história da sociedade moderna, a maternidade foi um grande trunfo para manter as mulheres afastadas da vida pública e, principalmente, da vida política.

Reivindicar a luta política quando exercida em concomitância à maternidade é algo histórico e muito corajoso. É um grito solitário em meio a uma política feita majoritariamente por homens.

Quando uma mulher se dispõe a participar ativamente da vida política e ao mesmo tempo assume a maternidade, ela rompe com vários estigmas e etiquetas sociais que são usadas justamente para evitar que as mulheres tomem as rédeas das decisões políticas. Aliás, o instinto materno é um mito alimentado toda vez que as mulheres passam a se conscientizar dos prejuízos que lhes são causados em virtude da ausência de representação política. Faz-se acreditar que as crianças devem ser sempre cuidadas em período integral pela mãe, que ela é a melhor cuidadora para os filhos e que está biologicamente preparada para isto. Ora, cuidar de crianças é algo extremamente exaustivo quando a tarefa é realizada de modo solitário. Incumbir essa atividade exclusivamente às mulheres é um meio eficaz de afastá-las da política.

Ou seja, a ideia de que maternidade e política são esferas inconciliáveis só favorece àqueles que não querem que mulheres participem das decisões políticas. Ironizar o fato de que uma candidata fala exaustivamente sobre seu filho e sua maternidade é combustível para silenciar uma pauta tão importante e tão necessária às mulheres e às crianças.

E é justamente essa a importância de termos uma candidata que não cansa de afirmar que é mãe e que não faz essa afirmação de maneira demagógica, o que é tão comum na política. Geralmente quando as crianças são citadas em campanha eleitoral, são utilizadas como instrumento para enaltecer supostas virtudes do candidato. São comuns as imagens de políticos carregando crianças em horário eleitoral ou mostrando sua rotina em casa ao lado dos filhos. A criança nada mais é do que um token e nunca protagonista do discurso.

E este tipo de imagem nunca foi utilizado pela Xênia. Ao contrário, a imagem de seu filho transcende o espaço privado quando ela afirma que ele frequenta a creche municipal, que utiliza o transporte público, e quando fala de sua própria infância na periferia de Curitiba, sempre tão esquecida nos projetos políticos.

Posso afirmar porque conheço a Xênia há um bom tempo. Sua vida é coerente ao seu discurso político. Sua maternidade é exercida de forma coletiva de maneira a responsabilizar a todos pelos cuidados com as crianças. É disso que a cidade precisa: que a responsabilidade pelos cidadãos e, sobretudo, pelas crianças seja de todos. Que a cidade seja feita e pensada para as pessoas. Que as crianças e as mães possam sair do espaço privado e tomar a cidade.

A Xênia Mello é a única candidata que reivindica o direito à cidade para as crianças e encerro com as suas palavras que transmitem um desejo que eu também compartilho como mulher e mãe:

“A gente precisa construir formas de viver e construir a política que acolha e inclua as crianças, em respeito à sua autonomia e concebendo-a como cidadãs inclusive tomando-as como produtoras da política e não apenas como seres tutelados e objetos de submissão da vontade dos adultos. É nesse mundo que acredito, é por esse mundo que eu luto!

E para quem critica, reafirmo: vai ter mãe feminista na política sim e vai ter discussão acerca dos direitos da criança também! 


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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Quando a birra vira patologia

Novamente viralizou pela internet um vídeo que expõe uma criança. Desta vez, tratava-se de um menino negro de 7 anos, aluno de uma escola municipal. Durante um acesso de raiva, o menino foi filmado por uma educadora e o vídeo publicado na internet. Sem qualquer sinal de tentar entender o que acontecia com ele, a educadora repetia para que ninguém tocasse no menino. O tom de deboche é evidente, deixando clara a intenção de dizer que a proibição de palmadas gera consequências como essa. Além disso, o menino é constantemente desafiado, o que intensifica os golpes que ele desfere contra os materiais da sala dos professores. Para terminar, a mulher que espantosamente é educadora pede para que chamem a polícia ou os bombeiros.

A reação explicitada na maioria dos comentários demonstra aquele velho pensamento adultista que sempre permeia este assunto. A violência contra a criança parece ser a única solução para silenciar os desconfortos demonstrados por ela. Portanto, o menino além de ter sido exposto por alguém que supostamente deveria zelar por ele, ainda se vê em meio a uma legião de pessoas que não demonstram pudor algum em incitar a violência contra ele. 

Mas por que agimos tão irracionalmente diante de uma "birra"? Uso a expressão assim entre aspas porque esta palavra é usada para se referir a uma demonstração de incômodo que acreditamos não ter razão de ser¹. E a expressão é usada principalmente para denominar ataques de raiva, fúria ou tristeza das crianças. Como se apenas pela fato de ela ser criança, seu incômodo fosse considerado menor ou desproporcional.

Pois bem, eu vejo essas "birras" como um marco super importante no desenvolvimento infantil. É na birra que a criança aprende a se colocar no mundo, se afirmar e se fazer ouvir. É neste momento que a gente percebe que a criança se reconhece como sujeito autônomo, separado de sua mãe.

Claro que estar presente naquele momento em que a criança se frustra, na figura de responsável por ela, é super difícil. Afinal, saber lidar com a frustração alheia é algo para poucos. Ainda mais quando a criança não tem desenvolvimento suficiente para conseguir nem entender o que está acontecendo, quanto mais saber controlar aquele sentimento. Porque além da imaturidade, a região do cérebro que coordena as emoções ainda está em desenvolvimento, Portanto, é algo realmente angustiante se frustar com algo e não saber racionalizar. Controlar a raiva é algo que aprendemos com o tempo e o que torna esse processo mais fácil é poder contar com a compreensão daqueles deveriam cuidar de nós.

Porque em momentos de angústia, às vezes, a única coisa que precisamos é de um abraço ou de um olhar compreensivo. Então, por que é tão difícil agir assim com uma criança? Por que a pulsão supostamente educadora parece falar mais alto do que o impulso de acolher? O que uma agressão poderia ajudar em uma caso desse?

Pelo vídeo não conseguimos saber nada daquele garoto. Não sabemos o motivo que o deixou tão furioso, tampouco se ele costuma agir dessa maneira e muito menos se aquela raiva tem origem em problemas familiares. Ora, toda criança age daquela forma. Algumas mais frequentemente, outras menos. Então por que reagir como se aquele menino fosse tão anormal?

O que quero dizer é que não acho que ele esteja necessariamente em sofrimento, ou que seja carente de amor ou, muito menos que tenha problemas psicológicos. E fico realmente assustada com a reação das pessoas que dizem querer defender o garoto usando algumas dessas hipóteses. Se fosse uma criança branca em uma escola particular, a reação seria a mesma?

Ao que me parece a vinculação direta entre desestrutura familiar e o ataque de fúria está diretamente ligada ao fato daquela criança ser negra e pobre. Como se a negritude pressuposse famílias incapazes de amar e proteger. Como se a pobreza implicasse em negligência.

Uma "birra" infantil não significa por si só que a criança viva em um ambiente hostil. Pelo contrário, poder se afirmar e se colocar é um ótimo sinal! Triste é saber que as pessoas não sabem lidar com a frustração alheia, ainda mais vindo de uma criança que não consegue racionalizar seus sentimentos.

A reação advinda deste momento tão peculiar da infância só revela adultismo, racismo e classismo. Por todos os lados. Seja daqueles que defendem o uso da violência contra a criança com daqueles que explicam a atitude do menino como falta de amor.

Tenho uma amiga que sempre repete: "A criança é um artefato biopolítico que garante a normalização do adulto²". Repreender a criança, encaixotá-la, nada mais é do que querer normalizar a nós mesmos. Por isso esta ânsia em obter "normalidade" da criança. Para que não chore. Não grite. Não se zangue. Triste daquele que não pode se expressar por medo de repreensão, e muito mais triste é aquele que não o faz por incapacidade de se reconhecer como sujeito portador de vontades.




1. Significado de birra: a.ato ou disposição de insistir obstinadamente em um comportamento ou de não mudar de ideia ou opinião; teima, teimosia. bsentimento ou demonstração de aversão ou antipatia, esp. quando renitente e motivado por algum capricho, paixão ou suscetibilidade; implicância, má vontade.

2. Esta frase é de Paul Preciado e pode ser lida neste incrível texto.



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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Das coisas que aprendo com meu filho

Então chega um dia que a gente percebe que tem muito mais a aprender com as crianças do que a ensinar. Já ouvi isso milhares de vezes, mas só venho entendendo agora o que quer dizer.

Tenho pensado que há três formas de exercer a alteridade. A mais comum, e infelizmente aquela da qual mais me valho, é a que despreza a realidade do outro e busca-se por explicações rasas e fáceis para justificar a realidade daquele que não sou eu. O que importa pro outro pode não importar para mim e ficamos por aí, sem qualquer pretensão de compreensão, incapaz de ver algo além de mim. Exemplo corriqueiro disso é querer explicar a situação alheia através de argumentos meritocráticos, em que se prega ser necessário apenas esforço para se atingir um objetivo, sem levar em conta demais fatores envolvidos na questão.

Também é possível se relacionar exercendo a empatia. E não acredito que isso seja um sentimento espontâneo, pelo contrário, vejo a empatia como um exercício que requer prática e racionalidade. Além disso, vejo a empatia como a tentativa de se colocar no lugar do outro. EU me coloco no lugar do outro, tento ver a realidade usando seus sapatos, entretanto, a partir dos meus olhos. Portanto, a empatia é eivada de uma intenção legítima de considerar o outro e sua realidade, todavia, não permite o acesso efetivo ao outro já que o EU se impõe. Sendo assim, empatia nada mais é do que se comover consigo mesmo. No entanto, acredito que essa seja a forma mais honesta de se relacionar com aqueles que não são tão próximos, afinal não é possível saber das histórias, limitações ou mesmo da realidade daquele que não conhecemos.

E há pouco tempo venho observando uma terceira possibilidade e esta é, sem dúvida, a mais difícil porem a mais efetiva maneira de acessar o outro. Ela consiste em esvair-se, deixando de lado o EU para que haja só o outro. É evidente que se desprender completamente de si é algo impossível, mas o que interessa é saber que para entender o outro o que menos importa é o meu EU. As minhas concepções e minha forma de ver o mundo (WELTANSCHAUUNG é uma expressão em alemão muito usada na filosofia para descrever o que quero dizer) pouco importam na realidade alheia. Conseguir tirar o meu EU do foco faz com que o outro se torne visível, porque somente assim eu consigo deixar de me para ver quem eu quero entender. A grande diferença entre a empatia e essa terceira possibilidade é que para aquela é necessário se por no lugar do outro. Ora, para isso é importante haver algum elemento de conexão, enquanto aqui cabe apenas a observação não sendo necessário um reconhecimento.

E cheguei nesta conclusão ao ver como meu filho se relaciona comigo e com as pessoas próximas. A criança possui a característica comum aos melhores cientistas: a observação. Ela observa não só o mundo a sua volta como também as pessoas e seus comportamentos. Ainda que ela não entenda o que é a morte, ela tem noção da relação de total dependência entre ela e os adultos. E entendê-los se torna uma questão de sobrevivência.

É no observar e entender a dinâmica de seu cuidador que a criança consegue obter o que é necessário para si. Não é à toa que as pessoas costumam dizer que os filhos se comportam diferente na presença da mãe. Ela, que costuma exercer a função de cuidador principal, torna-se o elo entre a criança e o mundo, por isso, entendê-la é vital para a sobrevivência da criança. Portanto, o filho passa a se relacionar com sua mãe da mesma forma que ela se relaciona com o mundo quando está diante dela. Ou seja, para a mãe fica fácil se reconhecer na criança, ainda que esse movimento seja inconsciente. E por existir essa conexão, há um convite para que a mãe empatize com o filho, no entanto, esse reconhecimento pode ficar restrito à criança que ela foi um dia sem se conseguir enxergar o indivíduo que se mostra na figura de filho.

Vários foram os momentos em que eu me peguei perplexa observando meu filho como se me visse num reflexo. Quantas vezes passei a entender melhor a dinâmica do meu marido ao observar pai e filho juntos. "Num retrato falado, eu, fichado e exposto em diagnóstico (...) Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê"[1]. É assim que me sinto perante meu filho: decodificada. É só observá-lo comigo para se ter uma leitura clara e límpida de quem eu sou.

E essa leitura é possível para as crianças porque, além de não estarem impregnadas de preceitos morais, elas conseguem deixar de lado o próprio self para ver o outro. Entender o outro neste caso é vital. E para nós, adultos, é fundamental que entendamos esse comportamento, sob pena de sacrificar o self da criança em troca de compreensão e reconhecimento. Porque esvair-se, desprender-se de si pode significar o sacrifício de se perder, de passar a incorporar o outro e assumir um falso self.

Uma coisa curiosa é que no alemão a palavra alteridade é "anderssein", que por sua vez pode ser traduzida por "ser o outro". Perceba, não é se colocar no lugar do outro e sim sê-lo. 

Essa é mais uma das coisas que venho aprendendo com meu filho. Muito mais do que exercer a empatia, a minha tentativa é entendê-lo para além de mim. É tentar enxergar o que ele realmente precisa quando me interpreta sob meus olhos. É poder respeitar e acolher o que ele realmente é nas suas mais diversas facetas.

Contudo, ainda que todas essas conclusões possam não passar de meros devaneios, tenho a certeza de que meu filho foi a pessoa que me fez olhar para dentro de mim, que tirou-me dos olhos um venda que insistia em me cegar diante de mim mesma e do meu verdadeiro eu.




[1] Letra da música Retrato para Iaiá de Rodrigo Amarante.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As crianças e a comunidade

Uma das coisas mais estranhas que me aconteceu desde que me tornei mãe foi a intromissão de geral na minha vida. Foi com o despontar da barriga que começaram os pitacos, as intromissões, os conselhos. Mas nada se compara com a chegada do bebê e a súbita sensação de que minha vida (e a dele) de uma hora para outra se tornou pública.

Andar com um bebê na rua significa atrair inúmeros olhares, além da possibilidade de ser parada para uma conversa despretensiosa com qualquer pessoa. É como se o simples fato de carregar um bebê desse carta branca para que as pessoas lhe dissessem como conduzir sua vida, apontar falhas sem qualquer constrangimento ou iniciar uma conversa sobre a experiência de ter filhos. Para alguém reservada e curitibana como eu foi algo assustador.

No começo fiquei perplexa e muitas vezes chateada, ou até mesmo brava com essa situação. Na maioria das vezes ou não respondia ou esboçava um sorriso amarelo, mesmo quando a vontade era de responder: "Te perguntei alguma coisa?". Contudo, faz uns meses que comecei a perceber que me acostumei a essa situação e poder conversar com pessoas que não conheço me traz uma sensação de pertencimento. Uma sensação tão boa que me sinto só, ensimesmada mesmo quando não ando pelas ruas com  meu filho.

Eu o levo a escola de ônibus todos os dias. O entrosamento já começa no elevador se encontramos algum vizinho. O que antes era somente um bom dia seco, agora a conversa se aperta nos poucos segundos que temos ali dentro. Cumprimentamos o zelador na portaria e saímos para rua. Não raro encontramos o gari logo à porta e o Daniel nos explica que é importante não jogar lixo na rua para não entupir o bueiro. O gari concorda e sempre troca umas risadas com ele. Seguimos e vemos uma linda imagem de uma mulher grafitada na parede. Daniel se encanta com a borboleta que ela carrega em seus ombros. Mas há poucas semanas, alguém pichou a imagem. Ele me pergunta, então, todos os dias: "Por que riscaram a cara da moça, mamãe?". Andamos mais um pouco e ele logo avista a barraca de frutas. Rapidamente me pede a moeda e corre para escolher a sua banana. O dono da barraca tem um filho da mesma idade que ele e se diverte com a felicidade que o Daniel demonstra ao fazer a sua compra sozinho: da escolha do produto ao pagamento. Seguimos para a fila do ônibus. Ali os passageiros já o conhecem pelo nome, tal qual o motorista. Eles sempre se surpreendem com a celeridade do crescimento do Daniel e como ele está mais falante a cada dia. A sensação é sempre a de zelo, tanto por mim quanto por ele. Chegamos ao nosso destino em frente a um prédio da prefeitura. Daniel fica encantado quando encontra o guarda hasteando as bandeiras. Seguimos em direção à casa do Nino, um cachorro magrinho que sempre está a procura do sol. Fazemos os cumprimentos rotineiros e ele permanece inerte. Mas quando nos despedimos, ele levanta num supetão e começa a latir enlouquecidamente. Passamos à casa do Bolota, Pepa e Nifet. Três cachorros que de longe nos escutam e esperam ansiosamente no portão. Às vezes encontramos a simpática moradora da casa e nos estendemos mais alguns minutos. No caminho ainda encontramos mais alguns moradores que já estão acostumados com nossa rotina até chegarmos no parquinho. Um parquinho acolhedor numa rua tranquila mas sempre carente de crianças. Pouquíssimas foram as vezes que vi ele receber a visita de outra criança que não fosse o Daniel. Me deixo convencer que outras crianças passam por ali mais ao fim do dia. É geralmente neste trecho que encontramos João, o gari, que sempre chama o Daniel de galego. Ainda temos tempo de afagar os três gatinhos vizinhos da escola e o cachorro Guido que vive com eles. Quando é época de amora pegamos algumas do pé e chegamos no portão da escola onde me despeço do meu companheiro de aventura.

Um percurso que poderia fazer sozinha e a pé facilmente em 20 minutos, costuma demorar quase uma hora. Cultivar essa rotina e cuidar para que tudo seja feito sem pressa nos abre a possibilidade de sempre conhecer gente nova, observar a minhoca que desliza entre a grama e perceber a imagem enorme do Paulo Leminski que nos observa. Caminhar com uma criança se deixando ser levada por ela é redescobrir a cidade e se sentir parte de uma comunidade. Uma comunidade formada por pessoas dos mais diferentes tipos que não se resumem apenas entre os nossos, sejam amigos, familiares ou colegas.

E o mais incrível é perceber como a infância é comovente. Uma criança nunca passa desapercebida por meio das pessoas. Seja através da completa indiferença (que não se enganem: nunca é espontânea) ou até daqueles que se sentem no direito de tocá-las antes mesmo de trocar algumas palavras.

E todo aquele meu desconforto com o que eu achava ser intromissão, hoje se transformou em satisfação. Deu lugar a uma sensação de fazer parte desse lugar que vivemos, de estar verdadeiramente entre as pessoas e o melhor: de que as pessoas se importam com a infância, ainda que a seu jeito, a infância ainda comove.


Há um vídeo lindo aqui que mostra a rotina do Tim Tim, muito parecida com essa do Daniel.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Besame Mucho: Como criar os seus filhos com amor - Resenha

Devo dar colo ao bebê sempre que ele chora ou que sinto vontade? Ele não irá se tornar um pequeno tirano por conta disso? Quando devo desmamá-lo? É saudável deixar o bebê dormir na mesma cama que seus pais? Até que idade essa situação deve perdurar? Como devo impor limites aos meus filhos? As crianças são cruéis por natureza?

A resposta a estas indagações dada por amigos, familiares e médicos vai de encontro àquilo que você intuitivamente sente? Então, experimente ler este livro.

Besame Mucho é um livro do pediatra espanhol Carlos Gonzalez que acredita não ser necessário aos pais livros de puericultura. No entanto, em meio a tantas informações desconexas e a bestsellers que preconizam haver uma disputa real entre pais e filhos, Carlos Gonzalez vem para acalantar e encher de amor o coração de pais que acreditam que seus filhos são essencialmente bons e que nessa relação não há disputa e sim interesses complementares:


Este livro que até há bem pouco tempo não tinha versão impressa para venda em português, me serviu de alento quando parecia que toda minha intuição ia de encontro com as recomendações sobre se cuidar de um bebê. Carlos Gonzalez reafirma a capacidade dos pais em criar seus filhos ao mesmo tempo que defende que os chamados da criança são legítimos e não manha ou um desejo incontrolável de manipular os pais. Afinal, não somos nós que estamos o tempo todo lendo e nos informando sobre criação dos filhos? Então, quem estaria tentando manipular quem nesta relação?

Ainda, o livro aborda esse sentimento excessivo de culpa que ronda as mães atualmente. Por que os cuidados são atribuídos quase que exclusivamente a elas? A quem interessa essa lógica que coloca as mães como culpadas pelas falhas na maternagem?


Definitivamente, este é um livro que está em defesa das crianças, assim como está em defesa dos pais. Carlos Gonzalez foi muito sensível em demonstrar que é possível cuidar das crianças sem vê-las como inimigos. Ao contrário, crianças são seres humanos carentes de atenção, respeito e amor.

Este livro é, sem dúvida, o melhor livro de puericultura que já li até hoje. Se pudesse, presentearia todos os pais com ele!

A versão física e em português pode ser encontrada aqui.

E a lista completa de livros sobre maternidade, inclusive com outras resenhas deste blog, está disponível aqui.



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O Livro da Maternagem - Resenha

Este foi o livro que me abriu as portas para o início de outras leituras sobre maternidade. Ele foi idealizado por uma pediatra, a Drª Thelma de Oliveira conhecida como Drª Relva, e foi inspirado em uma comunidade formada no Orkut, a Pediatria Radical. O livro é uma coletânea de textos sobre os mais variados assuntos que envolvam a maternagem escritos pela Drª Relva ou por outras mulheres que de alguma forma estavam ligadas pela comunidade virtual.

O resultado é um livro que preza pela maternagem com respeito à criança e a seus cuidadores, numa linguagem super acessível e que foge ao senso comum. Ele é imenso e conta com mais de 700 páginas, mas é feito para ser lido à medida que a curiosidade vai aparecendo. Como dito, os temas são bastante variados, e vão desde gravidez, parto, amamentação, sono, cuidado com o bebê, com a criança, introdução alimentar, passando por início da escolarização, obesidade infantil, papel do pediatra até a chegada de um irmãozinho. Conta ainda, com uma vasta bibliografia. Portanto, é um livro muito bacana para se ter sempre à mão para uma eventual consulta.

Para quem se interessa por um exercício da maternagem que foge aos padrões doutrinários e consumistas, ele é um prato cheio! Ressalto, que não se trata de um manual, tampouco uma cartilha sobre criação de filhos, ele é sim uma ferramenta que ajuda a lidar com situações de acordo com a realidade de cada criança e de seus pais. Inclusive, é uma excelente opção de presente para amigos que estão se preparando para serem pais.


Para saber mais sobre o livro, recomendo esta leitura. E ele pode ser encontrado aqui.


Por aqui tem também resenha do livro Sermões de Ser Mãe e Eu não quero (outra) cesárea. E a lista completa de livros sobre maternidade.







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segunda-feira, 6 de julho de 2015

O tal do instinto materno


Então o bebê nasce e vem para os seus braços tão miudinho e tão vulnerável e, de forma quase instantânea, surge a pergunta: o que faço com ele agora? Onde está o tal instinto materno para me ajudar?

Cada vez mais tenho a certeza de que essa história de instinto materno é uma grande bobagem. Nós mulheres não nascemos sabendo ser mãe. Muitas de nós, inclusive, nem desejam a maternidade. Pois é, esse papinho de que o relógio biológico vai tocar para toda mulher e convocá-la a ser mãe é também uma grande furada. A verdade é que quando nossos filhos nascem (e se nascem) nós não sabemos nada. Ainda que tenhamos lido muito, nos preparado, tido experiências com filhos de amigas ou com sobrinhos, a experiência de ter filhos é diferente.

Muitas mulheres se frustram ao ver seu filho pela primeira vez e não sentirem aquele amor avassalador. Eu mesma não senti. Senti que estava em transe, de certa forma eu tinha consciência da grandiosidade do acontecimento que era gestar e dar a luz a uma criança. Mas não era amor. Era um querer estar o tempo todo junto ao bebê lhe protegendo e saciando suas necessidades muito mais numa relação de cuidado do que de amor. O amor foi sendo então construído. À medida que ele é mais ele e menos eu, o amor cresce. À medida que ele vai conquistando autonomia e formando sua própria personalidade, a minha admiração vai crescendo por ver nele algo tão próximo a mim e ao mesmo tempo tão diferente.

Mas e o instinto materno? Talvez ele tenha algo a ver com essa necessidade inicial de proteger. Talvez tenha certa influência da nossa cultura judaico-cristã que manda honrar pai e mãe, afinal é deste mandamento que sai aquela estapafúrdia ideia de que pais acertam mesmo quando erram. "Honrar pai e mãe" é muitas vezes usado para expiar a culpa dos pais. Porque se mães fossem mesmo guiadas por um instinto materno não haveria erro de fato, não haveria traumas nem maus tratos.

No entanto, a despeito de não acreditar que exista um instinto materno, o que eu costumo dizer a “mães frescas” (ainda que eu também seja uma “recém-mãe”) sobre como guiar a maternagem é: se escute! Muito mais importante do que ouvir conselhos alheios é conseguir ouvir o que nós mesmas temos a nos dizer. Explico. A maternidade é uma convocação para olharmos a criança que fomos e os pais que tivemos. A maternidade é uma transformação. E como não fomos as mesmas crianças, nem tivemos os mesmos pais, ela é uma transformação que acontece de maneira diferente para cada um. E não estou dizendo que ela é uma experiência única! Ora, passar um mês no Tibet talvez seja transformador também! A maternidade não é algo único, mas é avassalador.

E por essa transformação ser diferente para cada pessoa na mesma medida que cada criança é um universo em si mesma, não há como existir receita para se criar filhos. Qualquer tipo de cartilha que tente ensinar pais como lidarem com essa experiência está fadada ao fracasso!

Acontece que conseguir se ouvir e deixar reviver a criança que se foi um dia pode ser muito doloroso. Não é à toa que grande parte das pessoas prefere ignorar esse chamado, tapar os ouvidos e abafar o grito que vem de dentro. Mas, muitas vezes, deixar de ouvir a criança que se foi um dia significa também deixar de olhar com olhos empáticos para o próprio filho. E por não acreditar em si mesma, toma-se como inquestionável as recomendações médicas, os conselhos de familiares, os pitacos dos amigos.

E acredito que por não existir o instinto materno é que mães podem ser suficientemente boas* mesmo quando não gestaram, mesmo quando não pariram, e até mesmo quando não são mulheres. O exercício de cuidar de uma criança, chamado de maternagem, convoca o cuidador para um olhar sobre si mesmo e essa introspecção é fundamental para um olhar empático para a criança, para que então se consiga comover pelos chamados que a criança faz ao adulto.


*O conceito de mãe suficientemente boa foi trazido pelo psicanalista Donald Winnicott. Em sua obra existe a ressalva de que este papel pode ser cumprido por outra pessoa que não a mãe biológica e muitas vezes utiliza o termo "cuidador". Contudo, é importante ressaltar que dentro do nosso contexto social, inclusive dentro do contexto brasileiro, o papel do cuidado é delegado quase que exclusivamente às mães. A Ligia Moreiras Sena, do blog Cientista que virou Mãe, aborda de forma muito contundente essa realidade, a qual pode ser vista, por exemplo, neste excelente texto.
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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Filho não é investimento


Imagem: http://www.webpronews.com/baby-robot-learns-its-first-words-2012-06
Quando surge a pergunta "ter ou não ter filhos" geralmente ela vem acompanhada do argumento: "eles farão companhia a você na sua velhice". Já na barriga, recomenda-se que o feto escute música clássica para ser mais inteligente. Então, aqueles pais que nunca escutaram música clássica na vida se tornam assíduos ouvintes de Mozart. Assim que nasce, aconselha-se que o bebê "aprenda a dormir" sozinho em seu quarto, sob pena de se tornar um verdadeiro tirano (escutei isso de uma pediatra quando meu filho tinha 2 fucking meses de vida!). Mas o terror acontece na idade escolar! Escolas bilíngues preparam as crianças para um futuro promissor! Não importa se os pais não falem outra língua que não a sua nativa.

Relações causa-efeito estão sempre permeando os livros de puericultura. Os conselhos sobre criação de filhos também são quase todos pautados nas consequências que um certo ato ou mesmo uma abstenção poderão causar no pequeno rebento. Não seria suficiente o argumento de tratar bem apenas por tratar bem? Por que é tão difícil escutar algo como: "respeite o seu filho porque todo ser humano é merecedor de respeito" ou "permita-se amá-lo sem limites porque amor só faz bem"?

E se engana quem pensa que o discurso baseado em prêmios futuros é difundido apenas nos meios convencionais. Até mesmo entre a dita maternagem ativa, em que os pais estão dispostos a refletir e se questionar sobre a criação dos filhos, textos relacionando a forma de maternar com os efeitos diretos gerados nas crianças são encontrados aos montes.

Não faz muito tempo circulou nas redes sociais uma pesquisa que relacionava amamentação prolongada com alto QI e renda acima da média. A despeito da questionável verdade científica implícita aí, acho muito curioso essa forma de incentivar a amamentação. Ora, não é muito difícil saber que o leite materno é o melhor alimento para o bebê, além disso, o ato de amamentar proporciona à criança um local de aconchego, carinho e proteção. Não seria isso motivo suficiente para ser adepto à amamentação prolongada? Quão válido é o argumento que promete inteligência e dinheiro para a vida adulta da criança?

Também fiquei muito intrigada ao ler um texto sobre a fase vivida por volta dos 2 anos (conhecida como terrible two) que falava da importância do uso da empatia com a criança que está vivendo esse momento. Estava achando tudo lindo, até que, novamente, vem o argumento causa-efeito: crianças que são compreendidas com 2 anos não se tornarão "monstrinhos" aos 4! E o termo usado foi exatamente esse: monstrinhos.

Meu filho, hoje, tem 2 anos. E essa é realmente uma fase difícil. Difícil porem lindíssima. É neste momento que estou me vendo lidando com um ser humano cheio de vontades, contradições e muito desejo de mostrar a todos essa autonomia. É difícil viver a divergência. É trabalhoso conciliar vontades diversas, inclusive porque ter uma vontade diversa é também uma das vontades dele nesse momento. Mas ao mesmo tempo é muito bonito perceber que aquele bebê que até então anuía ou mesmo se conformava fácil agora está se expressando e reivindicando seu lugar no mundo. Ter empatia com esse momento e respeitar essa fase é algo que me é caro não porque isso facilitará minha vida quando ele estiver com 4 anos, mas porque eu acredito que se deva respeitar os anseios de todas as pessoas, mesmos se esses anseios vierem de encontro com os meus. Respeitar não significa atender a todas as vontades, mas sim, levá-las aos menos em consideração. 

Há um certo tempo li outro texto de um pai que defendia a criação com apego. Ele afirmava que podia constatar que seu filho aos dois anos era uma criança muito autônoma porque havia sido tratada com muito respeito enquanto ainda era um bebê. Eu também acredito que crianças que sempre puderam confiar, se tornem mais confiantes. Que crianças que sempre foram respeitadas, aprendam a respeitar. Contudo, o que me incomoda é a forma determinista como isso costuma ser pregado. Como se essa atitude acarretasse em um resultado certo. O que falar, por exemplo, das crianças high need? Seriam elas mais carentes de atenção por conta de uma falha ocorrida no passado? Eu não acredito nisso. Respeitar as individualidades de cada um significa entender que cada ser humano é um universo em si mesmo. Que possuímos características distintas porque cada pessoa transforma a realidade exterior em uma vivência única. É natural, portanto, que alguém que viva cercado de violência reproduza violência. Ou alguém que viva cercado de amor, reproduza amor. Mas a vida é cheia de cores e um ato de carinho pode mudar a realidade de uma criança fadada a reproduzir ódio, como o contrário também pode acontecer.

Mas por que é tão difícil respeitar o outro sem esperar nada em troca? Sem esperar que aquilo reflita na forma como a pessoa vai construir sua personalidade? Sem esperar que nós sejamos futuramente, ainda que indiretamente, beneficiados por aquele ato? Será por isso que é tão comum encontrarmos pessoas que só tratam bem aqueles que podem, de certa forma, lhes beneficiar de alguma maneira?

Eu entendo que essa lógica do fazer hoje para ser recompensado no futuro é algo inerente do sistema capitalista. Como se tudo que nós fossemos e possuíssemos dependesse de algo que tenhamos feito no passado. Como se nosso "sucesso" dependesse apenas de nós ou de que nossos pais fizeram quando da nossa infância. E pensar a infância com essa lógica meritocrática é despejar em cima dos nossos filhos expectativas que visam cumprir o investimento dispendido!

Não raro me pego justificando certas atitudes com argumentos como esses, de que eu estaria fazendo aquilo para que no futuro meu filho agisse de determinada forma. Desconstruir esse tipo de raciocínio tem me sido uma das tarefas mais árduas desde que me tornei mãe. Abandonar essa forma de pensar pressupõe abandonar também qualquer manual ou cartilha para se criar filhos. Se cada individuo é único, não existe jeito certo e padrão de lidar com eles.

Não tenho dúvidas que princípios são aplicados de forma geral, no entanto, impor regras para amamentar, alimentar, desfraldar, alfabetizar, por exemplo, acabam passando por cima dessa individualidade e medem todas as crianças pela mesma régua. O meu lema, acima de qualquer coisa, é o respeito sempre. O respeito permite que mesmo falhando, eu possa me redimir. E me permite também escutar e avaliar o que o outro demanda de mim. Respeitar é primeiro se colocar no lugar do outro para então poder decidir qual atitude a tomar. É tirar o cuidador do foco da relação e centrá-lo na criança que demanda cuidados.

Ninguém é capaz de moldar uma pessoa. Estamos todos envoltos na chamada teoria do caos, em que um evento aleatório pode mudar a ordem das coisas. Acreditar que nossos atos trarão um resultado determinado aos nossos filhos é uma fórmula certeira para a frustração, tanto nossa como deles.

Por uma infância plena, livre de expectativas alheias, com voz e respeito ao que se é.


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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Por que a infância se torna pejorativa?

Há um tempo me chamaram a atenção para o uso do termo "infantil" de forma pejorativa. Sabe quando nos deparamos com alguém imaturo e logo dizemos: "parece criança!" ou "quanta infantilidade"? O mesmo se repete quando associamos a adolescência com comportamentos inconsequentes.
Pois então, associar a infância e a adolescência a um comportamento indesejável diz muita coisa à respeito do que realmente pensamos sobre essas fases. 

Foi então que hoje tive a sorte de ler esse texto lindo e esclarecedor da Ludmila Franca. Respeitar a criança e o adolescente significa também compreender a importância da vivência dessas fases da vida.


"Até ontem, eu chamava adultos imbecilizados, irresponsáveis, arrogantes, fúteis, superficiais e narcisistas de "eternos adolescentes". Era uma enorme injustiça da minha parte, como também um dia chamei de "infantil" esses comportamentos. É injusto associar a imaturidade natural e inerente aos processos juvenis (anímicos e biológicos) ao comportamento imaturo de quem já viveu todos estes processos de amadurecimento e opta por uma vida sem sentido e fútil dentro de panelinhas e farras sem fim. Chamar de "infantil" ou "adolescente" gente adulta que não incorpora seu tempo é uma forma de adultismo. São a infância e a adolescência similares ao comportamento deplorável do adulto? É assim que adultizamos nossos filhos, exigindo deles "maturidade" no momento em que eles ainda não dispõem sequer de estrutura biológica para tanto. É tachar seus comportamentos de forma negativa, porque são tomados pela linha de conta da perspectiva do adulto. Não. Adulto fútil é fútil. Adulto egoísta é egoísta. Adulto imbecil é imbecil. Não é "infantil" nem "adolescente", pois os comportamentos, que podem ser deploráveis na perspectiva do adulto, são normais e saudáveis na estrutura de desenvolvimento de crianças e adolescentes. É o adulto que está fora de lugar e de tempo, e não o comportamento do jovem que é "errado". 

Essa deslegitimação adultista produz, para a juventude, o fardo de ter suas condutas medidas pela mesma régua com que se mede as condutas dos adultos. Disso surge, por exemplo, o desejo punitivo e policialesco de reduzir a maioridade penal para 16 anos, impondo responsabilidades adultas bem no meio do processo de desenvolvimento juvenil, como se o jovem já pudesse arcar com o mesmo que um adulto. Também surgem as projeções, que gostam de colocar crianças sérias, vestidas com elegância, sofisticação e requinte, tocando violinos, ouvindo Mozart e discutindo Van Gogh aos 5 anos de idade, que não assistem desenhos animados e outras "infantilidades", mas sim a filmes do Von Trier, que falam 8 idiomas antes de completar 10 anos e que se preparam para fazer vestibular com 16 anos para "orgulhar" seus pais, que dirão: eis aí os meus genes, olha como sou fantástico, olha meu clone! Orgulho, na língua dos pais, é puro narcisismo, que transforma filhos em meros aglomerados de "meus genes", joguetes de frustrações, espelhos onde eu me admiro.

A expressão "eterno adolescente", assim como outrora o "adulto infantil", morreu no meu vocabulário. Breve serei mãe de uma adolescente e espero poder ampara-la neste difícil - porém bonito - momento de crescer e amadurecer, sem julgamentos e intolerância. Apenas amor, paciência, acolhimento e muito (mas muito!) respeito."



Agradeço também à Cristiane Matos que trouxe a reflexão quanto ao uso do termo “infantil” de forma pejorativa.
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