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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Aborto na Alemanha: como acontece quando não há crime


Na Alemanha, assim como em outros países europeus, a interrupção voluntária da gravidez é permitida até a 14ª semana de gestação. Não é necessário justificar essa escolha, contudo, a gestante deve ser atendida por um serviço de aconselhamento antes de se submeter ao aborto.

A legalidade acaba por diminuir o moralismo que cerca o tema. E, há uns meses, me deparei com esse relato de aborto vivenciado por uma alemã. Chamou-me a atenção a maneira como ela consegue falar sobre sua decisão de forma honesta e podendo compartilhar com pessoas próximas todo o sentimento envolvido neste período.



Abortos acontecem independente da origem, raça, credo e idade da mulher. Acontecem também em lugares em que a prática é criminalizada e moralmente reprovada. Criminalizar a conduta em nada diminui a sua incidência, ao contrário, mulheres acabam morrendo ao se submeterem a procedimentos realizados na ilegalidade. O aborto é hoje, no Brasil, uma das principais causas de mortalidade materna. A legalização acaba por quebrar um tabu em torno do tema e possibilita que as mulheres possam decidir baseadas em um estrutura que lhes dê apoio.

Por achar muito importante que este tema seja debatido e que se possa conhecer a realidade em outros países é que eu fiz essa tradução de um relato publicado no jornal alemão Die Zeit.




ABORTO: “EU VOU TIRAR ISSO”

“Duas listras rosas deixaram a vida de Lea Johnens* confusa. Ela está grávida. E tem que decidir, o que ninguém pode decidir por ela. Nove momentos de um aborto”. Nome alterado.


O SEXO
Abortar? Nunca. Até durante os estudos, é possível ser mãe. Isso era o que eu pensava – até ficar grávida. Aconteceu em 23 de dezembro. Meu namorado e eu normalmente usávamos camisinha. Só dessa vez que não. Nós nos descuidamos, assim como as pessoas às vezes se descuidam. Eu havia voltado há poucos dias do meu estágio de Berlim para Colônia. Lucas* e eu pouco tínhamos nos visto e brigávamos muito ao telefone. No Natal nos aproximamos um pouco de novo. Por isso eu sei exatamente a data.


A NOTÍCIA
Depois do Natal, eu tinha muita energia. Quase não precisava dormir, pela primeira vez em anos eu não tinha mais enxaqueca. Não importava o que eu fizesse, o quanto eu bebesse – nenhuma dor de cabeça. Hoje eu acredito que eram os hormônios. Neste período, eu fiz coisas completamente malucas, como dirigir durante quatro horas no Ano Novo para uma festa em Berlim às cinco horas da madrugada. E voltar no mesmo dia. Eu comi Currywurst[1], embora eu seja vegetariana há anos. E logo depois fiquei faminta por Mon Chéri[2]. Como no filme. Foi então que me veio o pensamento que alguma coisa estava estranha. Eu escrevi no meu diário: “Se eu estiver grávida, seria o horror”. Na manhã seguinte, eu fui a farmácia e comprei um teste de gravidez. Apenas por segurança. Eu fiz o teste sozinha no banheiro. Eu sabia como funcionava porque já tinha feito há alguns anos. Com uma diferença: desta vez apareceram duas listras – positivo.


OS PENSAMENTOS
Eu mal podia respirar. Na minha cabeça, de repente, apareceram imagens: eu com bebê, meu namorado, nós como pais. E sempre o pensamento: “Merda, o que eu faço agora?”. Em pânico, eu chamei minha melhor amiga. Ela veio imediatamente com um segundo teste. Ele também deu positivo. Eu corri pela casa, puxando os cabelos e gritando: “Eu não quero ter um filho com o Lucas! Eu não quero ter um filho sozinha! Eu não quero ter um filho de jeito nenhum!”. Naquele tempo, eu morava no sótão de uma casa antiga sem aquecedor, apenas com aquecedor à carvão na sala. Eu imaginava como eu iria subir as escadas com um bebê em um sling e ficar sozinha em um quarto frio. Eu tinha 25 anos, estava no meio dos estudos e não tinha ideia de como queria começar minha vida. Meu namorado e eu havíamos acabado de dar um tempo. Ele havia me traído nas férias de verão, e eu tinha beijado outra pessoa em Berlim. Nós ficamos juntos depois do Natal e esperávamos que fossemos nos aproximar de novo. Mas ambos não acreditávamos de verdade naquilo. E tentar novamente por uma criança seria um motivo ruim.

Minha amiga ficou quieta. Ela me aconselhou a ligar para um ginecologista. A atendente disse: “Ah, que bom. Então venha na terça da próxima semana. E se sua barriga puxar um pouco, é normal. Ela está se expandindo”. A assistente do médico falou comigo como se estivesse falando com uma mulher grávida. Eu não me sentia assim, tampouco queria isso. Eu murmurei “okay”, desliguei e procurei no Google outro médico próximo a mim. Desta vez, fui direto ao ponto: “Eu estou com uma gravidez indesejada e preciso de uma consulta imediatamente”. À tarde eu estava na sala de espera do consultório. Eu sentia as puxadas que a assistente havia me falado ao telefone.


A VISITA AO MÉDICO
 Uma bolinha no monitor da ultrassonografia: “Este é o feto”, disse o médico. “Você está na sétima semana”. Como eu não ri, ele desligou o monitor rapidamente. Eu deveria pensar sozinha se eu queria a criança, disse ele. O importante é apenas: até a nona semana de gestação eu poderia abortar com um comprimido, depois disso eu precisaria de uma intervenção com anestesia geral. Eu engoli a seco. Antes de ir ele ainda me perguntou se eu tinha um companheiro. “Eu também não sei isso agora”, falei. Então ele me deu um conselho: Eu só deveria falar com Lucas, quando eu soubesse o que queria. “É seu corpo, sua decisão e você aguentará as consequências”, ele disse. Eu fiquei surpresa. Meu primeiro impulso seria ligar para meu namorado. Eu refleti: Lucas era 14 anos mais velho que eu. Ele desejava um filho. Eu decidi não dizer nada a ele por enquanto.


A DÚVIDA
Nos dias seguintes, eu falei com minha melhor amiga, meu irmão e minha irmã. Não consegui contato com minha mãe. Ela estava na Suíça – em um retiro silencioso, em que celulares eram proibidos. Eu achei um número na internet e finalmente consegui falar com ela ao telefone. A sua opinião era muito importante para mim. Também porque ela mesma já tinha abortado. Eu sabia que ela não me julgaria. Ela disse: “Se você quiser ter o filho, eu estarei lá por você. E se você não quiser, também”.
Meu pai pensava diferente. “Você não deve abortar”, dizia ele. “Você nunca vai se perdoar”. Sua voz soava dura e isso me machucava. Desde criança eu tinha medo de brigar com meus pais. Eu tentava frequentemente me dar bem com as pessoas, porque não queria decepcioná-las. Desta vez não seria diferente.
  
Cinco anos antes eu já havia acompanhado um aborto da minha melhor amiga na época. Ela tinha 20 anos, grávida e achava que era muito nova para um filho. Ela morava comigo. Depois da operação, ela teve hemorragia. Eu fui com ela ao pronto socorro. Para ela, o aborto foi uma decisão errada. Ela chorava e sempre dizia: “Eu quero meu filho de volta”. Eu tentava consolá-la e tive que ver o seu sofrimento. Eu tinha que pensar agora naquele momento. Eu não queria que me acontecesse também.
  
Antes de se poder abortar na Alemanha, deve-se passar por um “conselheiro de grávidas”. Eu marquei uma consulta no pro família[3]. Na manhã antes da consulta, ao acordar, eu pensei: Okay, eu vou ter essa criança. À tarde, a atendente do pro família me explicou que eu poderia solicitar um apoio financeiro, se eu tivesse um filho. E como funciona um aborto. Ele me perguntou sobre planos para o futuro, sobre meu namorado, sobre a universidade. De maneira muito neutra e sem tentar me influenciar. A conversa correu bem, mas depois o sentimento ruim voltou. Para mim ficou claro: era a primeira vez em minha vida que ninguém poderia me dizer o que é certo ou o que é errado.


A DECISÃO
Eu me sentia realmente mal. Também fisicamente. A energia das primeiras semanas havia desaparecido. Eu tinha que vomitar a todo momento, estava cansada e fraca. Ficava deitada por horas no sofá, colocava minhas mãos sobre a barriga e tentava senti-lo em mim. Eu tentava construir uma conexão com o que estava em mim. Para mim, não era apenas um amontoado de células, mas uma forma de vida. Apesar disso, não considerava o aborto como assassinato. Talvez alguns não consigam entender, mas para mim foi assim. Eu pedia perdão em pensamento. Finalmente, escrevi no meu diário: “Eu tenho a sensação que isso é okay.”

Eu liguei para meu namorado e pedi que ele viesse. Nós não nos víamos havia dias. Lucas não teve tempo de tirar seu casaco e eu disse: “Eu estou grávida mas não vou ter o bebê”. Eu tive medo da sua reação. Que ele pudesse ficar furioso ou sair correndo. Mas em vez disso ele ficou triste e magoado. Porque ele queria aquele filho e não tinha chance de mudar minha decisão. No final, ele disse: “Eu acho isso realmente uma merda, mas se você quer assim, eu aceito isso”. Ele pediu também para me acompanhar no médico. No dia seguinte, marquei uma consulta.


O COMPRIMIDO
Eu fiquei surpresa como tudo correu de forma banal. Eu mostrei para o médico o documento do pro família. Ele perguntou: “Você tem certeza?” Eu assenti, ele me deu dois comprimidos. Um dele eu deveria tomar no consultório. “Ele interrompe o desenvolvimento do embrião”, disse ele. O segundo, eu tomaria três dias depois. “Ele assegura que o útero consiga expelir o tecido”. Um gole de água, um aperto de mão, e eu já podia ir. Eu tive que chorar ali fora. Não porque eu queria voltar atrás de minha decisão, mas porque correu tudo muito rápido. Quando o Lucas me buscou pela manhã, eu estava muito ansiosa. Agora me sentia vazia. Lucas me pegou pelo braço e nós bebemos café juntos. Então ele me trouxe para casa. Foi bom que ele estivesse junto.

Um dia depois minha mãe chegou da Suíça. O médico havia dito que alguém deveria cuidar de mim por conta da hemorragia. Minha mãe trouxe flores e uma vela. Eu estava tão feliz em vê-la.


O SANGUE
Quando eu tomei o segundo comprimido, não durou nem meia hora para que o sangue viesse. Vermelho vivo, com pedaços de tecido. Era tanto. Eu sabia que sangraria, mas não tinha ideia de quão forte seria. Eu não deveria usar absorvente interno, aquilo tinha que sair. Eu estava usando absorvente, mas alguns minutos depois, meu sofá estava todo manchado de sangue. O pior foi que eu tive ainda que vomitar. Os analgésicos não funcionaram, eu gemia, ficou tudo escuro. Durante uma hora eu pensei que fosse morrer. Nunca sofri tanto. Minha mãe ligou para o médico. Ele disse que não era comum. Mas foi porque os analgésicos não pararam em meu estômago. Minha mãe comprou supositórios na farmácia. Cerca de duas horas depois, a dor diminuiu. Depois de uma semana, o sangramento parou. Eu tive que descansar. Também do choque. Eu não imaginei que vivenciaria o aborto fisicamente, quando eu tomei os comprimidos de hormônio. Ainda tive que ir mais uma vez a uma consulta de controle. Esta foi a última vez que estive no consultório.


A LEMBRANÇA
O aborto aconteceu há três anos. No primeiro aniversário, eu escrevi em meu diário: “Hoje tive um sentimento em particular. Como se ‘aquilo’ tivesse aniversário”. Era na verdade um dia de morte. Mas não sentia, em absoluto, desse jeito. E sim como uma despedida de uma possibilidade.

Agora, eu tenho um novo namorado. Desde algum tempo venho me perguntando com mais frequência como seria ter um filho. A minha imagem de mãe não me traz mais medo. Ao contrário. Mas: nunca me arrependi da minha decisão.

*Nome alterado.



[1] Salsicha temperada com curry. Comida típica de Berlim.
[2] Pequenos bombons recheados com cereja e licor.
[3] Sociedade Alemã de Planejamento Familiar, educação sexual e aconselhamento sexual.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

De salvador de mulheres a mártir: A mentira do GO humanizado

Ontem saiu a publicação da cassação do seu registro no CRM. Hoje ele já está sendo alçado à mártir do movimento da humanização do parto/nascimento.

E esse texto não é sobre o mérito do processo e sobre as circunstâncias que ele aconteceu, é sobre o posicionamento de muitas ativistas em relação a este fato.

Antes de tudo, parto domiciliar não deveria ser assistido por médico obstetra. Parto não é ato médico. Gravidez e parto não são patologias. O médico somente deveria ser acionado em casos de gravidez de alto risco e intercorrências durante o parto. Um atendimento humanizado deveria, antes de mais nada, ser focado na mulher parturiente (ou em situação de abortamento) e depois em profissionais como a(o) enfermeira(o) obstetra e na doula. A mudança de postura dos médicos que assistem partos deveria ser um reflexo da mudança do sistema, mas não o foco.

Defender a presença de médicos no parto domiciliar é elitista. É elitista demais! Gostam tanto de citar modelos que privilegiam o parto domiciliar como o inglês ou o holandês, mas não se atentam ao fato de que esses mesmo sistemas estão ancorados na valorização do trabalho das parteiras! Médicos não assistem PD’s na Inglaterra nem na Holanda.

Médicos possuem formação intervencionista. Como já dito, eles estão preparados para lidar com intercorrências, com patologias. Se não há patologia, nem intercorrência, não é necessário médico. A sua presença só encarece todo o processo. Por este motivo, não é nem economicamente viável defender que partos domiciliares sejam atendidos por médicos.

Inclusive, o maior problema na assistência ao nascimento no Brasil é a centralização na figura do médico. E esse é o mesmo erro que muitas ativistas do movimento da humanização estão cometendo agora.

E é evidente que a postura dos médicos obstetras deve mudar. É sim necessário que a autonomia da mulher seja respeitada, mas esta é uma briga da humanização da saúde. A horizontalidade entre médico e paciente é uma das pautas desse movimento e abarca todo o sistema médico e não apenas a área ligada à obstetrícia.

Mas, sobretudo, muito me admira a comoção que tal cassação tem gerado. O referido profissional nunca foi de fato humanizado. E nunca foi porque não atende a todas as premissas da humanização do nascimento: medicina baseada em evidências, encarar o ato como evento transdisciplinar e, principalmente, respeitar a autonomia da mulher.

É humanizado aquele abertamente machista? Que não tem vergonha de dizer que o sistema patriarcal salvou as mulheres? E aquele que se coloca como a figura central no atendimento, em evidente confronto à premissa da transdisciplinaridade? Vocês estão lembradas que ele é contra a liberdade contratual da doula né? Que, em suas palavras, doula é como a salada do buffet, vem junto no pacote, comendo ou não...

Ele pode ser um excelente médico. O processo que culminou em sua cassação pode até ter sido injusto. E sua defesa neste sentido é legítima. Mas ele nunca foi humanizado. Transformá-lo em mártir do movimento é um grande erro.

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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O paternalismo que está por trás da Criança Feliz

Século XVIII. França. O cuidado com as crianças não é visto como algo importante. A imensa maioria dos bebês nascidos em Paris é entregue logo após o nascimento para amas[1], retornando à casa de seus pais apenas após a primeira infância. Cerca de 50% dessas crianças não atinge os 10 anos de idade. Os tempos são difíceis e a França precisa de homens para compor o exército, contudo, os jovens sobreviventes do descaso com a infância são em sua maioria pessoas doentes e fracas. Não por acaso, na mesma época surge um movimento de mulheres oriundas da aristocracia e da alta burguesia, denominadas “preciosas”, que começam a refletir sobre questões acerca da igualdade de gênero, fim de casamentos impostos, prazer sexual e, a partir disso, iniciam os questionamentos sobre o papel da mulher dentro da sociedade.

Neste cenário, estes dois fatos são encarados como as ameaças à França patriarcal: não há homens para compor a frente de batalha e as mulheres começam a dar sinais de emancipação.

É então que em 1762, Jean-Jacques Rousseau publica a obra Émile. O discurso trazido neste livro foi uma grande ferramenta para cristalizar ideias de que a família deveria ser fundada com base no amor materno. É um discurso altamente intelectualizado que naturaliza a função doméstica da mulher. Agora, as crianças são novamente cuidadas dentro de casa pelas suas mães. Numa solução que ao mesmo tempo que reduziu a mortalidade infantil também trouxe de volta as mulheres ao espaço privado.

2016. Brasil. O governo lança um programa ironicamente intitulado “Criança Feliz”. Também fundado na suposta preocupação com as crianças, o programa tem por objetivo promover o desenvolvimento infantil. O público alvo será as famílias beneficiárias do Bolsa Família (para gestantes e crianças até 3 anos) e do programa Prestação Continuada (para crianças até 6 anos que foram afastadas de suas famílias por medidas de proteção), portanto de baixa renda, que receberão visitas semanais de técnicos enviados pelo governo e os resultados destas visitas serão condicionantes ao recebimento dos aludidos benefícios. No discurso de lançamento do programa, ouvimos a primeira-dama enaltecer qualidades inatas que mulheres teriam ao exercer o papel de mãe. Além disso, ela se comprometeu a conversar com outras primeiras-damas e prefeitas sobre o programa, em uma explícita exclusão a participação de homens no que tange o cuidado com as crianças. Uma boa análise do discurso do lançamento deste programa pode ser lida aqui.

Foto de André Coelho

Três séculos depois. Países diferentes. Mas o mito do instinto materno é novamente usado para reforçar a ideia de que mulheres são maternais, que o seu lugar biológico é no cuidado. Mulher como primeira-dama e não como governante. Homens no espaço público e não se preocupando com os cuidados na infância. Não é pelas crianças. Nunca foi pelas crianças. Trata-se sempre de controle social. De medidas que docilizam, submetem e conformizam individualidades. Parece exagero? Então analisemos o programa Criança Feliz.

A motivação do programa foi resumida da seguinte forma:
"Estudos longitudinais de acompanhamento da população ano após ano mostram que as habilidades mais importantes se organizam muito cedo, depois elas têm mais dificuldade de se organizar, de se estabelecer. Então, o impacto que tem uma infância bem cuidada é enorme no desenvolvimento, na aprendizagem, na escola, no sucesso profissional, nas competências que o ser humano vai ter no restante da vida. Por isso que é importante a gente acoplar esse programa com o programa que trata com a população mais vulnerável, o Bolsa Família para poder impactar a longo prazo e essas famílias saírem da condição de pobreza, a longo prazo, quando seus filhos tenham um desempenho profissional melhor que o deles e ajuda toda a família a sair [da vulnerabilidade]."

Portanto, o programa foca em “habilidades importantes” que em um primeiro momento não traz um sentido muito preciso, mas que após se traduz também em “sucesso profissional”, lembrando que o público alvo do programa é a “população mais vulnerável”. Que tipo de programa é esse que tem dentro de suas principais medidas o acompanhamento SEMANAL e DOMICILIAR da população de baixa renda com fim de promover sucesso profissional nas crianças??? Ainda, importante destacar que a apresentação do projeto foi voltado às mulheres, sempre apelando para o mito do instinto materno, e inclusive convocando apenas mulheres da administração para compor o comitê que traçará os rumos do programa.

Este programa evidencia que o governo entende que a responsabilidade pelas crianças é exclusivamente das mães e que estas, por serem pobres, se mostram incapazes de cuidar de seus filhos. Escancaradamente, trata-se de um programa paternalista que sem ao menos ouvir essas mulheres, dita mecanismos que irão influenciar diretamente nas suas vidas. Não há outra explicação. Se houvesse, estaríamos falando em programas que incentivassem a participação dos homens na criação dos filhos através da criação da licença parental ou mesmo da ampliação da licença paternidade. Ou então em programas que investissem na criação de creches com educadores bem remunerados e com estrutura para atender bem as crianças. Ou mesmo algum investimento em transporte público de modo que os pais não perdessem tanto tempo no trajeto casa-trabalho. Poderia ser também um programa que garantisse saneamento básico e uma estrutura de moradia que garantisse a saúde dessas crianças. Ainda, se o problema fosse dificuldade no acesso à informação e apoio, que se investisse na contratação de médicos da família, de psicólogos e de assistentes sociais que estivessem à disposição quando procurados e não que estas visitas fossem feitas de maneira invasiva e obrigatória como se está sendo proposto.

Mas quando o governo entra SEMANALMENTE na CASA da população pobre com fim de orientar a MULHER sobre a criação dos filhos, a mensagem que temos é que a única responsável pela criação dos filhos é a mãe. Que os pais não são foco do programa, tampouco a estrutura da cidade importa para que as crianças cresçam em segurança, tanto afetiva como material. Ou seja, o programa isenta o GOVERNO e os HOMENS dos cuidados com os filhos e implanta um projeto PATERNALISTA[2] que culpabiliza mulheres pobres e mães. Culpabiliza porque o programa é focado em um atendimento pedagógico à mulher mãe fazendo crer que qualquer “desvio” na conduta dos seus filhos advém de algum desvio na sua própria conduta. Como se a falta de estrutura, a qual deveria ser prestada pelo Estado, não fosse o principal causador de lesões aos direitos das crianças.

Criança Feliz nada mais é do que um programa de controle social, que tem por fim garantir a conformidade do comportamento dos indivíduos, com traços tão poucos sofisticados que fariam Michel Foucault ruborizar.

E é também um programa que fere a autonomia da mulher periférica, em sua maioria mulheres negras. Além de não terem direito sobre o próprio corpo - já que o aborto é ilegal e inseguro para as mulheres pobres-, além de serem torturadas no momento de parir - em vista das práticas normatizadas de violência obstétrica seguidas pela maioria dos hospitais públicos-, agora essas mulheres receberão visitais semanais de agentes do governo que lhe dirão como devem criar seus filhos!

E concordo com o discurso de Marcela Temer quando diz que a infância é uma fase fundamental da vida de qualquer ser humano. Concordo também que deva ser um programa voltado ao atendimento das mulheres, já que elas são maioria das beneficiárias do Bolsa Família e frente ao tão frequente abandono paterno. Contudo, há maneiras de atender a primeira infância sem imputar às mulheres a função exclusiva no cuidado e sem ferir a sua autonomia. É possível também olhar para a criança desde o nascimento enquanto ser humano portador de direitos e não apenas como um devir, um projeto de investimento.

É preciso apoio e estrutura para conseguir criar os filhos. Não será através da tutela das mulheres periféricas que as crianças terão uma infância com mais amparo. O posto de belas, recatadas e do lar foi muito bem aceito a três séculos, masnão hoje. Não. Hoje não passarão!




[1] 1780: o tenente de polícia Lenoir constata, não sem amargura, que das 21 mil crianças que nascem anualmente em Paris, apenas mil são amamentadas pela mãe. Outras mil, privilegiadas, são amamentadas por amas-de-leite residentes. Todas as outras deixam o seio materno para serem criadas no domicílio mais ou menos distante de uma ama mercenária. (BADINTER,1981).
[2] Paternalismo, em sentido lato, é um sistema de relações sociais e trabalhistas, unidos por um conjunto de valores, doutrinas políticas e normas fundadas na valorização positiva da pessoa do patriarca.
Em sentido estrito, o paternalismo é uma modalidade de autoritarismo, na qual uma pessoa exerce o poder sobre outra combinando decisões arbitrárias e inquestionáveis, com elementos sentimentais e concessões graciosas.
Para o Direito Constitucional, o Estado paternalista é aquele que limita as liberdades individuais dos seus cidadãos com base em valores axiológicos que fundamentam as imposições estatais. Desta maneira, se justifica a invasão da parcela correspondente à autonomia individual por parte da norma jurídica, baseando-se na incapacidade ou idoneidade dos cidadãos para tomar determinadas decisões que o Estado julga corretas. (Fonte: Wikipedia)
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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Por que ser mãe na política incomoda tanto?



A maternidade e a defesa da infância estão em pauta este ano na campanha eleitoral à Prefeitura de Curitiba e vem sendo trazidas pela candidata do PSOL, Xênia Mello. E, além disso, essas questões têm sido abordadas de maneira bastante honesta e política. Sim, política no sentido de afirmar que a maternidade e a infância são pautas que DEVEM fazer parte da vida política, sendo pensadas e consideradas em todas as decisões nas esferas legislativas e administrativas.

Desde sua última campanha em 2014, Xênia já fazia questão de mostrar que a maternidade era uma de suas pautas e como feminista que é nunca deixou de lado a máxima: o pessoal é político!



Ocorre que na atual campanha tenho visto muitas críticas em relação ao discurso que a Xênia adotou. Embora ela também afirme repetidas vezes que é negra e tem origem periférica, o que parece mesmo incomodar é sua condição de mãe aliada as falas tão frequentes sobre seu filho. Ora, ainda que as questões raciais e de classe sejam quase sempre silenciadas nos debates políticos, é sintomática a invisibilização das mulheres mães.

Quem a crítica pelo discurso ainda não entendeu que a maternidade e a infância devem ser pautas políticas. Não entendeu que durante toda a história da sociedade moderna, a maternidade foi um grande trunfo para manter as mulheres afastadas da vida pública e, principalmente, da vida política.

Reivindicar a luta política quando exercida em concomitância à maternidade é algo histórico e muito corajoso. É um grito solitário em meio a uma política feita majoritariamente por homens.

Quando uma mulher se dispõe a participar ativamente da vida política e ao mesmo tempo assume a maternidade, ela rompe com vários estigmas e etiquetas sociais que são usadas justamente para evitar que as mulheres tomem as rédeas das decisões políticas. Aliás, o instinto materno é um mito alimentado toda vez que as mulheres passam a se conscientizar dos prejuízos que lhes são causados em virtude da ausência de representação política. Faz-se acreditar que as crianças devem ser sempre cuidadas em período integral pela mãe, que ela é a melhor cuidadora para os filhos e que está biologicamente preparada para isto. Ora, cuidar de crianças é algo extremamente exaustivo quando a tarefa é realizada de modo solitário. Incumbir essa atividade exclusivamente às mulheres é um meio eficaz de afastá-las da política.

Ou seja, a ideia de que maternidade e política são esferas inconciliáveis só favorece àqueles que não querem que mulheres participem das decisões políticas. Ironizar o fato de que uma candidata fala exaustivamente sobre seu filho e sua maternidade é combustível para silenciar uma pauta tão importante e tão necessária às mulheres e às crianças.

E é justamente essa a importância de termos uma candidata que não cansa de afirmar que é mãe e que não faz essa afirmação de maneira demagógica, o que é tão comum na política. Geralmente quando as crianças são citadas em campanha eleitoral, são utilizadas como instrumento para enaltecer supostas virtudes do candidato. São comuns as imagens de políticos carregando crianças em horário eleitoral ou mostrando sua rotina em casa ao lado dos filhos. A criança nada mais é do que um token e nunca protagonista do discurso.

E este tipo de imagem nunca foi utilizado pela Xênia. Ao contrário, a imagem de seu filho transcende o espaço privado quando ela afirma que ele frequenta a creche municipal, que utiliza o transporte público, e quando fala de sua própria infância na periferia de Curitiba, sempre tão esquecida nos projetos políticos.

Posso afirmar porque conheço a Xênia há um bom tempo. Sua vida é coerente ao seu discurso político. Sua maternidade é exercida de forma coletiva de maneira a responsabilizar a todos pelos cuidados com as crianças. É disso que a cidade precisa: que a responsabilidade pelos cidadãos e, sobretudo, pelas crianças seja de todos. Que a cidade seja feita e pensada para as pessoas. Que as crianças e as mães possam sair do espaço privado e tomar a cidade.

A Xênia Mello é a única candidata que reivindica o direito à cidade para as crianças e encerro com as suas palavras que transmitem um desejo que eu também compartilho como mulher e mãe:

“A gente precisa construir formas de viver e construir a política que acolha e inclua as crianças, em respeito à sua autonomia e concebendo-a como cidadãs inclusive tomando-as como produtoras da política e não apenas como seres tutelados e objetos de submissão da vontade dos adultos. É nesse mundo que acredito, é por esse mundo que eu luto!”

E para quem critica, reafirmo: vai ter mãe feminista na política sim e vai ter discussão acerca dos direitos da criança também! 


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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Todas nós somos mães abusivas

Todas nós somos mães abusivas. Em maior ou menor grau, todas acabamos por abusar do poder de autoridade que nos é investido assim que nos tornamos mãe. E não porque essa seja uma condição inata da maternidade, e sim porque a característica iconoclasta a qual o papel de mãe foi alçado é algo inatingível. Tentar dar conta do papel de mãe que nos é imposto acaba, quase que inevitavelmente, em impingir abusos aos filhos que estão sob nossa autoridade.

A exclusividade do cuidado delegada às mães é algo que investe tanto poder numa atividade que nunca poderia ser exercida por uma só pessoa. Cuidar deveria ser sempre um verbo conjugado no plural. Dar conta de uma ou mais crianças é uma atividade tão exaustiva que exercê-la sozinha é uma missão fadada ao fracasso. Porque cuidado que é exercido por uma só pessoa exige que ela renuncie a todas as suas outras características para se tornar apenas cuidadora. Deixa-se de ser mulher para assumir apenas a condição de mãe.

Imagem do filme "Coraline"

E quando falo nessa exclusividade do cuidar não me refiro apenas às mães solteiras, falo do papel de mãe que nos é apresentado hoje. Falo da mentira do instinto materno, que hipocritamente presenteia mulheres com um dom único, o de cuidar. Eleva-as à posição da sacralidade. Preenche de maneira plena sua feminilidade. Em contrapartida, deixa homens livres para se eximirem do cuidado e tomarem o espaço público, já que para conquistar o título de bom pai basta que se troque fraldas.

Por outro lado, a figura da boa mãe é tão perfeita que dificilmente se conhecerá alguma, todavia, ludibriadas pelo mito do amor materno, estaremos todas dispostas a acreditar que possamos também conquistar tal título. E nesta busca cruel pelo reconhecimento fazemos reféns as crianças.

Qualquer comportamento supostamente reprovável de uma criança é logo imputado à maneira como a mãe educa. Sendo assim, filhos saudáveis, gentis e articulados seriam a prova de que a mãe fez um bom trabalho. Seriam, porque na falha a mãe será sempre a culpada, mas no êxito as causas são diversas.

E como conseguir filhos espelhos? Como fazer deles a prova de que passamos no teste da boa mãe? Doutrinando. E toda doutrina, seja ela deliberada ou não, vem marcada por abusos e excessos.

Portanto, não é a maternidade que é eivada de abuso, e sim a forma como exigimos que ela seja exercida que cria um ambiente favorável a ele. Mudar a forma como lidamos com a maternidade e, consequentemente, esvaziar o papel que atribuímos à mãe se mostra urgente.

O esvaziamento do papel de mãe é algo libertador não só para mulheres como também para seus filhos. A pluralidade no cuidado liberta a mulher para ser além da maternidade. Fornece à criança ferramentas para poder diferenciar práticas de cuidado abusivas das respeitosas. Porque saber reconhecer a violência consiste em um bom sinal de sanidade. Porem, quando se vive em um único ambiente, naturaliza-se as práticas ali exercidas, como se não houvesse realidade além daquela. Vivenciar a pluralidade, para além de outros benefícios, faz com que se crie um repertório capaz de reconhecer o abuso.

E é também por isso, que venho me convencendo que a forma como encaramos a maternidade hoje não só aprisiona as mulheres, mas também a seus filhos. Que a responsabilidade pelo cuidado não seja exclusiva de ninguém, que seja coletiva. Que não seja um fardo, que seja terno.
Este texto se originou após reflexão sobre este texto que, por sua vez, surgiu em virtude deste outro.
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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Frozen: encontrando pelo em ovo

Se você ainda não assistiu ao filme, não termine de ler. Mesmo se não tenha filhos e fique com vergonha de ver um filme infantil, não se reprima! Vale a pena, o filme é bom mesmo. 

Antes do meu filho nascer, eu nunca havia lido um livro duas vezes e não gostava nem um pouco de ver um filme mais de uma vez. Recordo-me de uma amiga que assistia quase todos os dias A viagem de Chihiro. E adorava. A sua filha era enlouquecida por este filme e fazia todo mundo rever e rever quase que em um looping eterno.

Então, em um belo dia resolvemos mostrar o filme Frozen ao meu filho e ele se apaixonou, assim como eu. Não é apenas porque o desenho é bonito, ou porque a trilha sonora é lindíssima, e sim porque a história é muito boa. E quem diria que logo eu, que apenas tinha repetido com prazer O clube da luta, agora estou aqui no looping eterno com o Frozen.

Ok, Frozen não é assim tão revolucionário. Continua com as mesmas princesas lindas, magras e loiras (ou ruivas). O filme chega a brincar com a aparência da personagem Anna quando ela aparece toda descabela e babando enquanto dorme. Mas mesmo assim, continuam sendo princesas dentro do padrão de beleza.

Outra questão bem problemática do filme é o tratamento dado à Elsa pelos pais após descobrirem a força do poder do congelamento que ela possui. Quando criança, Elsa se divertia com essa aptidão até que, por acidente, atinge sua irmã Anna enquanto brincavam. A partir deste fato, Elsa é mantida presa em seu quarto, ainda que por sua vontade, pois acreditava que se afastando e reprimindo seu poder, estaria protegendo todos a seu redor. Então, durante toda a sua infância e adolescência, deixa de manter contato com o mundo exterior, excluindo do seu convívio até mesmo sua irmã. Os pais acabam morrendo em um acidente e, ao completar 18 anos, é coroada a rainha de Arendelle.

Elsa sempre foi ensinada a reprimir seu poder e isto fica muito bem ilustrado quando ganha luvas de presente do pai - estas luvas conseguiriam inibir a força do congelamento. É uma metáfora muito clara de como precisamos usar artifícios para esconder quem realmente somos. 

Ao meu ver, o poder de congelamento de Elsa representa nossos sentimentos ruins ou mesmo alguma característica que possa chocar a sociedade. Desde pequenos somos ensinados a reprimir isso. Seja em um inocente "não foi nada" quando a criança chora ao cair, até em querer moldar deliberadamente a personalidade dos filhos. Há um livro* sensacional que trata justamente das consequências dessa repreensão dos sentimentos desde cedo, mas isso será assunto para outro post.

A música tema do filme, lerigoooo, lerigoooo, ilustra muito bem essa angústia em não se poder ser quem realmente é:

Don't let them in, don't let them see                                     Não os deixe entrar, não os deixe ver
Be the good girl you always have to be              Seja a boa menina que você sempre deve ser
Conceal, don't feel, don't let them know               Oculte, não sinta, não deixe que eles saibam
Well, now they know                                                                                       Bem, agora eles sabem

Let it go, let it go                                                                                             Deixa pra lá, deixa pra lá
Can't hold it back anymore                                                                         Não posso esconder mais
Let it go, let it go                                                                                             Deixa pra lá, deixa pra lá
Turn away and slam the door                                                                        Afaste-se e bata a porta
I don't care what they're going to say                                   Não me importa o que eles vão dizer
Let the storm rage on                                                                         Deixe a tempestade se alastrar
The cold never bothered me anyway                                    O frio nunca me incomodou mesmo

Elsa, então, mesmo se sentindo livre ao viver sozinha, percebe que ainda não está feliz. E é aí que entra a importância de sua irmã no filme.

Anna é a irmã mais nova. Após o acidente provocado por Elsa, que motivou o isolamento, Anna passa a viver sozinha. Pede insistentemente que sua irmã volte a brincar com ela e, por ser uma princesa, também deve ficar dentro de seu castelo, privada do convívio com outras crianças. (Não entendo muito bem o motivo disso, só sei que é assim).

Até que chega o grande dia da coroação e Anna fica em êxtase ao saber que irá participar de uma festa. Contudo, fica bem claro que seu grande desejo é encontrar o príncipe encantado. Não a recrimino. Afinal, passou a vida toda sozinha, falando com quadros, natural que quisesse uma companhia. E como por mágica do destino, encontra nessa festa o seu suposto grande amor. Ao contar a novidade para Elsa, é duramente recriminada. Ora, ninguém pode querer se casar com alguém que acabou de conhecer! E ploft, a Disney pisa em cima do mito do amor à primeira vista. Cheguei a emocionar. Depois, quando conhece Christopher, novamente reforça-se a ideia de que o amor é uma construção e não uma reação química provocada por feromônios. O nome disso é paixão, diria Rita Lee.

E é nesse momento que começa a ficar claro o cunho feminista do filme. Ele, inclusive, passa com louvor e estrelinhas no teste de Bechdel. É evidente que a Disney se aproveitou de uma onda pop que vem usando e abusando do feminismo. Claro que os fins são comerciais. Mas eu acho é bom. Se há um lugar que o feminismo ainda é raro e que se faz muito necessário, é na infância. Que se fale mais sobre amor entre mulheres, que se fale tanto sobre mulheres que elas sejam também representadas por personagens de diversas etnias, que sejam negras, que sejam gordas, que sejam também pobres! Porque exaltar mulheres brancas, lindas, magras e rycaaaaahs é bom, já que é preciso que a mulher seja mais representada, todavia precisamos que todas sejam representadas!

Carolina, obrigada! Sempre.

No entanto, é quando se desvenda o ato de amor verdadeiro que não resta mais dúvidas sobre a inserção de premissas feministas. Anna descobre que o amor verdadeiro é aquele que ela sente pela irmã, e assim salva a vida de ambas. Se bem que as duas passaram a infância inteira separadas e Anna acreditou sempre que esse afastamento era puro desprezo de sua irmã. Ou seja, elas não tiveram tanto tempo juntas para que esse amor se construísse... mas enfim, é um filme e certas incoerências a gente deixa passar.

O que não dá para deixar passar são várias mancadas da produção de dublagem. Se você ainda não viu a versão original, mesmo que seja legendada, corre o risco de ter perdido grandes sacadas. Além das músicas, que são muito bonitas na versão original, há alguns exemplos de comida de bola da dublagem. Um deles é quando Anna e Christopher encontram o castelo de gelo construído por Elsa. A construção é tão grandiosa e deslumbrante que Christopher se emociona e confessa que está com vontade de chorar. Na versão original, Anna responde algo como "Vá em frente, não te julgarei". Ao passo que na versão dublada a resposta é completamente contrária ao que o filme quis passar: "Pode chorar! Não conto para ninguém." Ou seja, quem produziu a dublagem não entendeu que a mensagem era justamente dizer que os homens também podem chorar sem julgamento, que não precisam reprimir seus sentimentos. Mas a dublagem apenas confirma que homens só podem chorar escondido e, se alguém os vir, será um segredo. Lamentável.

Mas a minha grande piração ainda está por vir. Se você achou que até agora eu estou procurando pelo em ovo, espere para ler minha teoria de mensagem subliminar.

Só quem tem mais de 30 irá se lembrar da polêmica mensagem subliminar do Rei Leão


Olaf é o nome do boneco de neve criado pelas irmãs quando elas ainda eram crianças. Ele ressurge na história quando Elsa o recria juntamente com o castelo. Olaf é até um nome comum nos países nórdicos, porém, em se tratando de roteiro de um filme com investimento tão expressivo, nada é por acaso.

OLAF é o espelho de FALO. Ou seja, quando se lê umas das palavras de trás para frente, tem-se a outra. Falo vem do grego phallós, que se originou do latim phallus. Ainda que a grafia não seja a mesma, a fonética é muito parecida.

O que eu achei curioso neste nome é que um filme que traz princípios feministas de forma tão evidente conte com um personagem que dentre tantos nomes foi se chamar falo ao contrário. Note-se que Olaf foi criado pela Elsa e ganhou sua grande cenoura das mãos de Anna. Ele é um personagem ingênuo (o grande sonho deste boneco de neve é viver no verão, como não amar?), chega até a ser bobo, que não tem grande importância no enredo da história, mas muito querido pelas duas protagonistas do filme.

A minha interpretação deste personagem é a de que ele é uma brincadeira com a teoria da inveja do falo, teoria a qual sugere que o desenvolvimento de gênero e sexual das mulheres é determinado pela percepção da ausência do pênis. Algo como um desejo por ter nascido homem.

Ora, o filme fala de duas mulheres órfãs, sendo que a uma delas incumbiu-se a tarefa de governar um reino, duas mulheres que se amam verdadeiramente. Entre elas, está o bobinho Olaf, com a missão de diverti-las. Não parece ser coincidência, não é?

O teste de Bechdel, que eu inclusive já citei aqui, compreende três regras: que o filme tenha pelo menos duas mulheres, que elas conversem entre si, e que essa conversa não seja sobre homens. É realmente muito difícil encontrar um filme que passe neste teste. E a grande maioria dos filmes da Disney, se não todos, traz as suas heroínas sempre com um grande objetivo: encontrar marido. E, de certa forma, ainda é assim que a sociedade vê as mulheres: bem sucedidas são aquelas que conseguiram se casar. Experimente passar dos trinta e continuar solteira. Pois é.

Sim, nós mulheres temos outras ambições que não a de se casar. Nós conversamos entre nós sobre diversos assuntos que não envolvam homens. Lidem com isso.


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EDITADO EM 24/12/2015:

Eu tenho uma amiga que escreve coisas lindas e que frequentemente me faz pensar sobre diversas questões. E ela escreveu sobre esse filme com a precisão e ternura que lhe é peculiar. E eu achei tão bonito que pedi permissão à Ludmila Franca para incluir sua visão sobre o Frozen aqui também:

"Duas mulheres que têm um brinquedo chamado Olaf (que, de trás pra frente, é Falo), cujo nariz de cenoura (super fálico) é dado pela sua dona. Duas mulheres sozinhas no mundo, entregues à própria sorte, uma delas absolutamente carente e canalizando sua carência como 90% das mulheres, sonhando com o amor de um homem para ser feliz. Porque sem homem a vida não tem sentido, assim nos dizem todo instante. A outra, em desequilíbrio de sua força, por... carência. Cada dia mais fria e acreditando piamente que merece a solidão no castelo que ela mesma construiu para se proteger do mundo. Um príncipe, que promete o mundo, como tantos homens... Uma mulher que acredita que só pode sair de casa se for para casar. Que só pode ser amada se for escolhida para esposa. E a outra, que impede e diz: não se casa com pessoas que mal conhecemos. O que você sabe sobre amor verdadeiro?
Um filme que dá uma reviravolta na cabeça da gente, formatada em torno da ideia de que tudo depende de achar um homem ou de morrer sozinha, sem amor. Um filme que fala que o amor verdadeiro pode ser o amor entre duas irmãs. O amor que salva. O amor que liberta Anna da carência e a coloca para atravessar sua classe social e namorar o proletário. O amor que dá a Elsa seu eixo e a permite realizar a potência de sua magia para ser uma soberana plena de si e generosa para seu povo. Uma irmã que deixa o cara no meio do caminho e vai salvar sua irmã, mesmo que isto custe sua própria vida. Uma outra irmã que descobre que é o amor, e não a solidão, o destino das mulheres poderosas, duas mulheres que brincam com um Olaf/Falo, bastando a si mesmas, se salvando, cuidando de si. Uma Anna que não desiste do amor de sua irmã jamais. Uma Elsa que não permite sua irmã cair na armadilha de casar com um príncipe e ser infeliz. Uma Anna que olha para além de sua classe e descobre a nobreza no proletário sem modos. Uma Elsa que aprende a cuidar e ser cuidada, que aprende que o amor da sua irmã é sua salvação. Uma Anna que aprende que o amor de que ela tanto precisa é da sua irmã e que ela não precisa de príncipe nenhum. Uma Elsa que se casa consigo mesma, mas descobre que a solidão nunca foi a resposta para que ela fosse a melhor versão de si mesma; que seu poder não é para gerar medo, mas sim alegria ("o medo é seu maior inimigo", diz o filme no início). Ah... Eu amo essas duas."





*Não julgue esse livro pelo título. A tradução foi muito infeliz. Não é sobre crianças super dotadas, tampouco culpabiliza os pais por traumas impingidos a seus filhos.

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segunda-feira, 23 de março de 2015

Feminismo e Humanização do Parto: uma combinação necessária


Imagem do Projeto Fotográfico 1 em 4
A ideia de humanização do parto está intrinsicamente ligada ao protagonismo da mulher e à sua autonomia sobre seu corpo. Não há humanização desvinculada dessas premissas. Até por isso, uma cirurgia cesárea pode ocorrer de forma muito respeitosa, mas nunca será humanizada, visto que o sujeito ativo da cirurgia é o médico, sendo dele o protagonismo pelo ato.*

O movimento da humanização se mostrou fundamental frente à realidade de nascimento no Brasil: em que a mulher é tida como incapaz de parir e por isso um parto normal não humanizado significa se submeter a uma série de intervenções desnecessárias que violentam tanto a mulher como o bebê e que a cada dia se mostram mais institucionalizadas dentro do sistema hospitalar.

Toda essa medicalização e hostilidade perante o nascimento são reflexos de como a sociedade encara o corpo e a sexualidade feminina. Porque o parto é sim a continuação do sexo. E sexo e prazer para a mulher são tabus.

A naturalização da violência obstétrica é fruto de um sistema patriarcal que subjuga a mulher. Combater estas violências, então, implica em lutar contra o machismo e contra essa estrutura social.

Ao meu ver, portanto, não existe humanização sem feminismo. Porque se a humanização é a luta pelo respeito à mulher e sua autonomia, como tratar disso se não sob a ótica feminista? Qualquer tipo de humanização que menospreze o feminismo tenderá a ruir.

Se não se mantém coerente o pensamento de que a mulher é protagonista de sua vida, que não lhe cabe tutela, não há como ter humanização. Não tem como defender o patriarcado e se declarar defensor da autonomia da mulher sobre seu corpo . São coisas que se repelem.

Premissas como a garantia da autonomia do corpo e a igualdade de gênero quando ausentes na assistência ao parto acabam por repetir o modelo tradicional de assistência, visto que a naturalização e consequente normatização das violências obstétricas decorrem justamente da subjugação do gênero feminino tão combatida pelo feminismo.

Infelizmente o movimento pela humanização no Brasil ainda é muito pequeno e conta com poucos expoentes, embora seja visível o grande crescimento que se obteve nos últimos anos. E pelo movimento ainda ser pequeno, que é necessário se preservar essas poucas vozes que lutam pelos direitos das mulheres.

Contudo, preservar não pode significar a defesa a qualquer custo. Porque se há um profissional que se diz humanizado (e ironicamente se autointitula salvador de mulheres devolvendo-as o protagonismo no parto) mas defende o sistema patriarcal como um sistema de sucesso que protege as mulheres, esse profissional pode ser tudo, menos humanizado. Porque não dá pra trocar a tutela do cesarista, pelo dito humanizado. Na humanização não cabe tutela de ninguém, cabe somente o respeito à mulher e ao bebê.

No momento em que é mais importante manter nomes (mitos) da humanização do que combater o patriarcado, que é o grande causador da cultura de VOs, é porque a luta se perdeu, e o sistema opressor voltou a girar pro mesmo lado.

Este texto se originou de uma discussão que também fez surgir esse aqui.


*Essa frase foi bastante problematizada e acabei mudando de opinião sobre a questão do protagonismo mesmo na cesárea. As reflexões que surgiram podem ser lidas aqui.


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