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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O paternalismo que está por trás da Criança Feliz

Século XVIII. França. O cuidado com as crianças não é visto como algo importante. A imensa maioria dos bebês nascidos em Paris é entregue logo após o nascimento para amas[1], retornando à casa de seus pais apenas após a primeira infância. Cerca de 50% dessas crianças não atinge os 10 anos de idade. Os tempos são difíceis e a França precisa de homens para compor o exército, contudo, os jovens sobreviventes do descaso com a infância são em sua maioria pessoas doentes e fracas. Não por acaso, na mesma época surge um movimento de mulheres oriundas da aristocracia e da alta burguesia, denominadas “preciosas”, que começam a refletir sobre questões acerca da igualdade de gênero, fim de casamentos impostos, prazer sexual e, a partir disso, iniciam os questionamentos sobre o papel da mulher dentro da sociedade.

Neste cenário, estes dois fatos são encarados como as ameaças à França patriarcal: não há homens para compor a frente de batalha e as mulheres começam a dar sinais de emancipação.

É então que em 1762, Jean-Jacques Rousseau publica a obra Émile. O discurso trazido neste livro foi uma grande ferramenta para cristalizar ideias de que a família deveria ser fundada com base no amor materno. É um discurso altamente intelectualizado que naturaliza a função doméstica da mulher. Agora, as crianças são novamente cuidadas dentro de casa pelas suas mães. Numa solução que ao mesmo tempo que reduziu a mortalidade infantil também trouxe de volta as mulheres ao espaço privado.

2016. Brasil. O governo lança um programa ironicamente intitulado “Criança Feliz”. Também fundado na suposta preocupação com as crianças, o programa tem por objetivo promover o desenvolvimento infantil. O público alvo será as famílias beneficiárias do Bolsa Família (para gestantes e crianças até 3 anos) e do programa Prestação Continuada (para crianças até 6 anos que foram afastadas de suas famílias por medidas de proteção), portanto de baixa renda, que receberão visitas semanais de técnicos enviados pelo governo e os resultados destas visitas serão condicionantes ao recebimento dos aludidos benefícios. No discurso de lançamento do programa, ouvimos a primeira-dama enaltecer qualidades inatas que mulheres teriam ao exercer o papel de mãe. Além disso, ela se comprometeu a conversar com outras primeiras-damas e prefeitas sobre o programa, em uma explícita exclusão a participação de homens no que tange o cuidado com as crianças. Uma boa análise do discurso do lançamento deste programa pode ser lida aqui.

Foto de André Coelho

Três séculos depois. Países diferentes. Mas o mito do instinto materno é novamente usado para reforçar a ideia de que mulheres são maternais, que o seu lugar biológico é no cuidado. Mulher como primeira-dama e não como governante. Homens no espaço público e não se preocupando com os cuidados na infância. Não é pelas crianças. Nunca foi pelas crianças. Trata-se sempre de controle social. De medidas que docilizam, submetem e conformizam individualidades. Parece exagero? Então analisemos o programa Criança Feliz.

A motivação do programa foi resumida da seguinte forma:
"Estudos longitudinais de acompanhamento da população ano após ano mostram que as habilidades mais importantes se organizam muito cedo, depois elas têm mais dificuldade de se organizar, de se estabelecer. Então, o impacto que tem uma infância bem cuidada é enorme no desenvolvimento, na aprendizagem, na escola, no sucesso profissional, nas competências que o ser humano vai ter no restante da vida. Por isso que é importante a gente acoplar esse programa com o programa que trata com a população mais vulnerável, o Bolsa Família para poder impactar a longo prazo e essas famílias saírem da condição de pobreza, a longo prazo, quando seus filhos tenham um desempenho profissional melhor que o deles e ajuda toda a família a sair [da vulnerabilidade]."

Portanto, o programa foca em “habilidades importantes” que em um primeiro momento não traz um sentido muito preciso, mas que após se traduz também em “sucesso profissional”, lembrando que o público alvo do programa é a “população mais vulnerável”. Que tipo de programa é esse que tem dentro de suas principais medidas o acompanhamento SEMANAL e DOMICILIAR da população de baixa renda com fim de promover sucesso profissional nas crianças??? Ainda, importante destacar que a apresentação do projeto foi voltado às mulheres, sempre apelando para o mito do instinto materno, e inclusive convocando apenas mulheres da administração para compor o comitê que traçará os rumos do programa.

Este programa evidencia que o governo entende que a responsabilidade pelas crianças é exclusivamente das mães e que estas, por serem pobres, se mostram incapazes de cuidar de seus filhos. Escancaradamente, trata-se de um programa paternalista que sem ao menos ouvir essas mulheres, dita mecanismos que irão influenciar diretamente nas suas vidas. Não há outra explicação. Se houvesse, estaríamos falando em programas que incentivassem a participação dos homens na criação dos filhos através da criação da licença parental ou mesmo da ampliação da licença paternidade. Ou então em programas que investissem na criação de creches com educadores bem remunerados e com estrutura para atender bem as crianças. Ou mesmo algum investimento em transporte público de modo que os pais não perdessem tanto tempo no trajeto casa-trabalho. Poderia ser também um programa que garantisse saneamento básico e uma estrutura de moradia que garantisse a saúde dessas crianças. Ainda, se o problema fosse dificuldade no acesso à informação e apoio, que se investisse na contratação de médicos da família, de psicólogos e de assistentes sociais que estivessem à disposição quando procurados e não que estas visitas fossem feitas de maneira invasiva e obrigatória como se está sendo proposto.

Mas quando o governo entra SEMANALMENTE na CASA da população pobre com fim de orientar a MULHER sobre a criação dos filhos, a mensagem que temos é que a única responsável pela criação dos filhos é a mãe. Que os pais não são foco do programa, tampouco a estrutura da cidade importa para que as crianças cresçam em segurança, tanto afetiva como material. Ou seja, o programa isenta o GOVERNO e os HOMENS dos cuidados com os filhos e implanta um projeto PATERNALISTA[2] que culpabiliza mulheres pobres e mães. Culpabiliza porque o programa é focado em um atendimento pedagógico à mulher mãe fazendo crer que qualquer “desvio” na conduta dos seus filhos advém de algum desvio na sua própria conduta. Como se a falta de estrutura, a qual deveria ser prestada pelo Estado, não fosse o principal causador de lesões aos direitos das crianças.

Criança Feliz nada mais é do que um programa de controle social, que tem por fim garantir a conformidade do comportamento dos indivíduos, com traços tão poucos sofisticados que fariam Michel Foucault ruborizar.

E é também um programa que fere a autonomia da mulher periférica, em sua maioria mulheres negras. Além de não terem direito sobre o próprio corpo - já que o aborto é ilegal e inseguro para as mulheres pobres-, além de serem torturadas no momento de parir - em vista das práticas normatizadas de violência obstétrica seguidas pela maioria dos hospitais públicos-, agora essas mulheres receberão visitais semanais de agentes do governo que lhe dirão como devem criar seus filhos!

E concordo com o discurso de Marcela Temer quando diz que a infância é uma fase fundamental da vida de qualquer ser humano. Concordo também que deva ser um programa voltado ao atendimento das mulheres, já que elas são maioria das beneficiárias do Bolsa Família e frente ao tão frequente abandono paterno. Contudo, há maneiras de atender a primeira infância sem imputar às mulheres a função exclusiva no cuidado e sem ferir a sua autonomia. É possível também olhar para a criança desde o nascimento enquanto ser humano portador de direitos e não apenas como um devir, um projeto de investimento.

É preciso apoio e estrutura para conseguir criar os filhos. Não será através da tutela das mulheres periféricas que as crianças terão uma infância com mais amparo. O posto de belas, recatadas e do lar foi muito bem aceito a três séculos, masnão hoje. Não. Hoje não passarão!




[1] 1780: o tenente de polícia Lenoir constata, não sem amargura, que das 21 mil crianças que nascem anualmente em Paris, apenas mil são amamentadas pela mãe. Outras mil, privilegiadas, são amamentadas por amas-de-leite residentes. Todas as outras deixam o seio materno para serem criadas no domicílio mais ou menos distante de uma ama mercenária. (BADINTER,1981).
[2] Paternalismo, em sentido lato, é um sistema de relações sociais e trabalhistas, unidos por um conjunto de valores, doutrinas políticas e normas fundadas na valorização positiva da pessoa do patriarca.
Em sentido estrito, o paternalismo é uma modalidade de autoritarismo, na qual uma pessoa exerce o poder sobre outra combinando decisões arbitrárias e inquestionáveis, com elementos sentimentais e concessões graciosas.
Para o Direito Constitucional, o Estado paternalista é aquele que limita as liberdades individuais dos seus cidadãos com base em valores axiológicos que fundamentam as imposições estatais. Desta maneira, se justifica a invasão da parcela correspondente à autonomia individual por parte da norma jurídica, baseando-se na incapacidade ou idoneidade dos cidadãos para tomar determinadas decisões que o Estado julga corretas. (Fonte: Wikipedia)
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Todas nós somos mães abusivas

Todas nós somos mães abusivas. Em maior ou menor grau, todas acabamos por abusar do poder de autoridade que nos é investido assim que nos tornamos mãe. E não porque essa seja uma condição inata da maternidade, e sim porque a característica iconoclasta a qual o papel de mãe foi alçado é algo inatingível. Tentar dar conta do papel de mãe que nos é imposto acaba, quase que inevitavelmente, em impingir abusos aos filhos que estão sob nossa autoridade.

A exclusividade do cuidado delegada às mães é algo que investe tanto poder numa atividade que nunca poderia ser exercida por uma só pessoa. Cuidar deveria ser sempre um verbo conjugado no plural. Dar conta de uma ou mais crianças é uma atividade tão exaustiva que exercê-la sozinha é uma missão fadada ao fracasso. Porque cuidado que é exercido por uma só pessoa exige que ela renuncie a todas as suas outras características para se tornar apenas cuidadora. Deixa-se de ser mulher para assumir apenas a condição de mãe.

Imagem do filme "Coraline"

E quando falo nessa exclusividade do cuidar não me refiro apenas às mães solteiras, falo do papel de mãe que nos é apresentado hoje. Falo da mentira do instinto materno, que hipocritamente presenteia mulheres com um dom único, o de cuidar. Eleva-as à posição da sacralidade. Preenche de maneira plena sua feminilidade. Em contrapartida, deixa homens livres para se eximirem do cuidado e tomarem o espaço público, já que para conquistar o título de bom pai basta que se troque fraldas.

Por outro lado, a figura da boa mãe é tão perfeita que dificilmente se conhecerá alguma, todavia, ludibriadas pelo mito do amor materno, estaremos todas dispostas a acreditar que possamos também conquistar tal título. E nesta busca cruel pelo reconhecimento fazemos reféns as crianças.

Qualquer comportamento supostamente reprovável de uma criança é logo imputado à maneira como a mãe educa. Sendo assim, filhos saudáveis, gentis e articulados seriam a prova de que a mãe fez um bom trabalho. Seriam, porque na falha a mãe será sempre a culpada, mas no êxito as causas são diversas.

E como conseguir filhos espelhos? Como fazer deles a prova de que passamos no teste da boa mãe? Doutrinando. E toda doutrina, seja ela deliberada ou não, vem marcada por abusos e excessos.

Portanto, não é a maternidade que é eivada de abuso, e sim a forma como exigimos que ela seja exercida que cria um ambiente favorável a ele. Mudar a forma como lidamos com a maternidade e, consequentemente, esvaziar o papel que atribuímos à mãe se mostra urgente.

O esvaziamento do papel de mãe é algo libertador não só para mulheres como também para seus filhos. A pluralidade no cuidado liberta a mulher para ser além da maternidade. Fornece à criança ferramentas para poder diferenciar práticas de cuidado abusivas das respeitosas. Porque saber reconhecer a violência consiste em um bom sinal de sanidade. Porem, quando se vive em um único ambiente, naturaliza-se as práticas ali exercidas, como se não houvesse realidade além daquela. Vivenciar a pluralidade, para além de outros benefícios, faz com que se crie um repertório capaz de reconhecer o abuso.

E é também por isso, que venho me convencendo que a forma como encaramos a maternidade hoje não só aprisiona as mulheres, mas também a seus filhos. Que a responsabilidade pelo cuidado não seja exclusiva de ninguém, que seja coletiva. Que não seja um fardo, que seja terno.
Este texto se originou após reflexão sobre este texto que, por sua vez, surgiu em virtude deste outro.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Besame Mucho: Como criar os seus filhos com amor - Resenha

Devo dar colo ao bebê sempre que ele chora ou que sinto vontade? Ele não irá se tornar um pequeno tirano por conta disso? Quando devo desmamá-lo? É saudável deixar o bebê dormir na mesma cama que seus pais? Até que idade essa situação deve perdurar? Como devo impor limites aos meus filhos? As crianças são cruéis por natureza?

A resposta a estas indagações dada por amigos, familiares e médicos vai de encontro àquilo que você intuitivamente sente? Então, experimente ler este livro.

Besame Mucho é um livro do pediatra espanhol Carlos Gonzalez que acredita não ser necessário aos pais livros de puericultura. No entanto, em meio a tantas informações desconexas e a bestsellers que preconizam haver uma disputa real entre pais e filhos, Carlos Gonzalez vem para acalantar e encher de amor o coração de pais que acreditam que seus filhos são essencialmente bons e que nessa relação não há disputa e sim interesses complementares:


Este livro que até há bem pouco tempo não tinha versão impressa para venda em português, me serviu de alento quando parecia que toda minha intuição ia de encontro com as recomendações sobre se cuidar de um bebê. Carlos Gonzalez reafirma a capacidade dos pais em criar seus filhos ao mesmo tempo que defende que os chamados da criança são legítimos e não manha ou um desejo incontrolável de manipular os pais. Afinal, não somos nós que estamos o tempo todo lendo e nos informando sobre criação dos filhos? Então, quem estaria tentando manipular quem nesta relação?

Ainda, o livro aborda esse sentimento excessivo de culpa que ronda as mães atualmente. Por que os cuidados são atribuídos quase que exclusivamente a elas? A quem interessa essa lógica que coloca as mães como culpadas pelas falhas na maternagem?


Definitivamente, este é um livro que está em defesa das crianças, assim como está em defesa dos pais. Carlos Gonzalez foi muito sensível em demonstrar que é possível cuidar das crianças sem vê-las como inimigos. Ao contrário, crianças são seres humanos carentes de atenção, respeito e amor.

Este livro é, sem dúvida, o melhor livro de puericultura que já li até hoje. Se pudesse, presentearia todos os pais com ele!

A versão física e em português pode ser encontrada aqui.

E a lista completa de livros sobre maternidade, inclusive com outras resenhas deste blog, está disponível aqui.



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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

SMAM 2015: Apoio à mulher que trabalha e amamenta

Quem vê a cena de uma mulher serenamente amamentado não sabe se, ainda durante sua gravidez, a expectativa sobre o sucesso da amamentação era angustiante. Se acordava de madrugada pensando se teria leite suficiente, se conseguiria amamentar, se o leite não seria fraco, e que tudo isso poderia ser uma tortura.

Quem vê um bebê adormecer placidamente ao seio não vê a mulher que há meses não dorme uma noite inteira. Não imagina as dores que ela possa ter sentido nos primeiros meses de amamentação, que apesar da dor, do empedramento do leite, do seio escorrendo sangue, ela pode ter persistido e conseguido continuar amamentando.

Quem vê uma mulher amamentando desinibida em lugar público não se pergunta sobre a rede de apoio que foi necessária para que ela continuasse a ter momentos tão cheios de amor com seu bebê. Se havia um(a) companheiro(a) que acordava junto com ela para acalmar o bebê que chorava, se tinha amigos que passaram na sua casa e trouxeram comida quentinha quando ela se via perdida na casa suja em meio aos choros e à solidão do puerpério. 

Quem vê um bebê já grande sendo amamentado, não questiona sobre os colegas de trabalho de sua mãe que fizeram todo o possível para que ele seguisse mamando mesmo ela tendo de voltar à jornada antiga. Quem vê essa cena, não tem a mínima noção do quanto é sacrificante persistir amamentando mesmo com olhares e comentários de reprovação.

Quem vê uma mulher amamentando, não imagina a satisfação e a felicidade que é ver o bebê engordar e crescer loucamente somente com o leite produzido pelo seu próprio corpo. 

Ao mesmo tempo, quem vê um bebê segurando bravamente sua mamadeira, nem pensa se sua mãe, por conta da mastite, viu seu leite se misturar à sangue e pus, e se gritou dores lancinantes e desistiu da amamentação. Ou se via seu filho mamar incansavelmente mas não se satisfazer com o leite que brotava do seu corpo e acabou optando pela complementação.

Quem vê uma mulher dando mamadeira ao seu bebê, não pensa em questionar a indústria do leite artificial que insiste em fazer as mulheres acreditarem que seus corpos são falhos e patrocinam até mesmo os pediatras para lhes fazerem pensar assim.

Quem vê uma mulher com seu bebê nos braços a apoiar uma mamadeira, não imagina que a despeito da ausência dos hormônios da amamentação, é também possível criar vínculo e laços de amor ainda que ausente a sucção ao seio.

Quem vê uma mulher que não conseguiu amamentar, esquece de perguntar se teve alguém que lhe limpasse a casa, lhe fizesse comida, lhe desse palavras de apoio, lhe chamasse para conversar e fazer um passeio, lhe oferecesse o ombro para chorar as angústias nunca antes vividas.

Porque amamentar é antes de tudo um evento coletivo. Cada mãe que possui uma história bem sucedida de amamentação tem por detrás de si toda uma rede de apoio. E por saber que a minha história bem sucedida é uma vitória coletiva, é que é tão importante saber acolher quem não conseguiu amamentar. Enxergar os meus privilégios e reconhecê-los como tais, faz com que o meu olhar sobre o outro seja de empatia e não de julgamento. Porque o aleitamento está além de ser uma escolha individual, visto que é algo que depende intimamente do apoio que se recebe.

E por ser o aleitamento algo tão importante para o bebê e o apoio tão determinante para esta conquista é que devemos lutar para que o apoio ao aleitamento materno seja cada vez maior e que perpasse todas as esferas da nossa vida, seja ela familiar, social, legislativa ou corporativa.

E, ainda, por saber que muitas mulheres para conseguirem maternar precisam trabalhar, ou mesmo, para se realizarem com a maternidade precisam também se sentirem realizadas com sua vida profissional, que é importante dar suporte à mãe que amamenta e que trabalha.

Por este motivo, aproveito a Semana Mundial do Aleitamento Materno de 2015 que tem como mote o apoio à mulher que trabalha e amamenta para agradecer imensamente a toda a minha rede de apoio que tem me acolhido nessa caminhada que já dura mais de dois anos e meio.

Agradecer ao meu marido que esteve prontamente ao meu lado sendo a base da nossa relação de amamentação, auxiliando sempre desde a simples oferta de um copo de água até resolvendo todos os perrengues que estavam além da díade mãe-bebê. Que, além disso, tem sido fundamental na condução do desmame que há pouco se iniciou.

Aos meus colegas e amigos de trabalho que prestaram apoio incondicional a mim e ao Daniel quando tivemos que voltar ao trabalho já nos seus quatro meses de vida. Voltamos juntos, com sala, berço e muito colos e abraços emprestados.

À minha mãe que sempre esteve tão presente desde o nascimento e que já há algum tempo passa noites com o Daniel para que possamos dormir noites inteiras, ou mesmo não dormir e relembrar a vida de quando ainda éramos somente filhos.

À pediatra mais linda que já conhecemos que sempre buscou antes de aconselhar, ouvir. Que nunca desincentivou o aleitamento, pelo contrário, sempre deu forças para que ele se mantivesse enquanto julgássemos necessário.

E aos amigos que não se afastaram. Que mesmo com nossa mudança radical de vida e já cansados de tanto me ver com os peitos de fora, continuaram a nos proporcionar boas risadas e momentos que só encontramos com aqueles que escolhemos ser irmãos.

Por tudo isso, nesta semana tão especial, desejo apoio às mães que amamentam e acolhimento às que não conseguem.


E por aqui já teve texto sobre amamentação, machismo e misoginia.

E muitas dicas do Dr. Carlos Gonzalez para o sucesso do aleitamento.
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segunda-feira, 6 de julho de 2015

O tal do instinto materno


Então o bebê nasce e vem para os seus braços tão miudinho e tão vulnerável e, de forma quase instantânea, surge a pergunta: o que faço com ele agora? Onde está o tal instinto materno para me ajudar?

Cada vez mais tenho a certeza de que essa história de instinto materno é uma grande bobagem. Nós mulheres não nascemos sabendo ser mãe. Muitas de nós, inclusive, nem desejam a maternidade. Pois é, esse papinho de que o relógio biológico vai tocar para toda mulher e convocá-la a ser mãe é também uma grande furada. A verdade é que quando nossos filhos nascem (e se nascem) nós não sabemos nada. Ainda que tenhamos lido muito, nos preparado, tido experiências com filhos de amigas ou com sobrinhos, a experiência de ter filhos é diferente.

Muitas mulheres se frustram ao ver seu filho pela primeira vez e não sentirem aquele amor avassalador. Eu mesma não senti. Senti que estava em transe, de certa forma eu tinha consciência da grandiosidade do acontecimento que era gestar e dar a luz a uma criança. Mas não era amor. Era um querer estar o tempo todo junto ao bebê lhe protegendo e saciando suas necessidades muito mais numa relação de cuidado do que de amor. O amor foi sendo então construído. À medida que ele é mais ele e menos eu, o amor cresce. À medida que ele vai conquistando autonomia e formando sua própria personalidade, a minha admiração vai crescendo por ver nele algo tão próximo a mim e ao mesmo tempo tão diferente.

Mas e o instinto materno? Talvez ele tenha algo a ver com essa necessidade inicial de proteger. Talvez tenha certa influência da nossa cultura judaico-cristã que manda honrar pai e mãe, afinal é deste mandamento que sai aquela estapafúrdia ideia de que pais acertam mesmo quando erram. "Honrar pai e mãe" é muitas vezes usado para expiar a culpa dos pais. Porque se mães fossem mesmo guiadas por um instinto materno não haveria erro de fato, não haveria traumas nem maus tratos.

No entanto, a despeito de não acreditar que exista um instinto materno, o que eu costumo dizer a “mães frescas” (ainda que eu também seja uma “recém-mãe”) sobre como guiar a maternagem é: se escute! Muito mais importante do que ouvir conselhos alheios é conseguir ouvir o que nós mesmas temos a nos dizer. Explico. A maternidade é uma convocação para olharmos a criança que fomos e os pais que tivemos. A maternidade é uma transformação. E como não fomos as mesmas crianças, nem tivemos os mesmos pais, ela é uma transformação que acontece de maneira diferente para cada um. E não estou dizendo que ela é uma experiência única! Ora, passar um mês no Tibet talvez seja transformador também! A maternidade não é algo único, mas é avassalador.

E por essa transformação ser diferente para cada pessoa na mesma medida que cada criança é um universo em si mesma, não há como existir receita para se criar filhos. Qualquer tipo de cartilha que tente ensinar pais como lidarem com essa experiência está fadada ao fracasso!

Acontece que conseguir se ouvir e deixar reviver a criança que se foi um dia pode ser muito doloroso. Não é à toa que grande parte das pessoas prefere ignorar esse chamado, tapar os ouvidos e abafar o grito que vem de dentro. Mas, muitas vezes, deixar de ouvir a criança que se foi um dia significa também deixar de olhar com olhos empáticos para o próprio filho. E por não acreditar em si mesma, toma-se como inquestionável as recomendações médicas, os conselhos de familiares, os pitacos dos amigos.

E acredito que por não existir o instinto materno é que mães podem ser suficientemente boas* mesmo quando não gestaram, mesmo quando não pariram, e até mesmo quando não são mulheres. O exercício de cuidar de uma criança, chamado de maternagem, convoca o cuidador para um olhar sobre si mesmo e essa introspecção é fundamental para um olhar empático para a criança, para que então se consiga comover pelos chamados que a criança faz ao adulto.


*O conceito de mãe suficientemente boa foi trazido pelo psicanalista Donald Winnicott. Em sua obra existe a ressalva de que este papel pode ser cumprido por outra pessoa que não a mãe biológica e muitas vezes utiliza o termo "cuidador". Contudo, é importante ressaltar que dentro do nosso contexto social, inclusive dentro do contexto brasileiro, o papel do cuidado é delegado quase que exclusivamente às mães. A Ligia Moreiras Sena, do blog Cientista que virou Mãe, aborda de forma muito contundente essa realidade, a qual pode ser vista, por exemplo, neste excelente texto.
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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Filho não é investimento


Imagem: http://www.webpronews.com/baby-robot-learns-its-first-words-2012-06
Quando surge a pergunta "ter ou não ter filhos" geralmente ela vem acompanhada do argumento: "eles farão companhia a você na sua velhice". Já na barriga, recomenda-se que o feto escute música clássica para ser mais inteligente. Então, aqueles pais que nunca escutaram música clássica na vida se tornam assíduos ouvintes de Mozart. Assim que nasce, aconselha-se que o bebê "aprenda a dormir" sozinho em seu quarto, sob pena de se tornar um verdadeiro tirano (escutei isso de uma pediatra quando meu filho tinha 2 fucking meses de vida!). Mas o terror acontece na idade escolar! Escolas bilíngues preparam as crianças para um futuro promissor! Não importa se os pais não falem outra língua que não a sua nativa.

Relações causa-efeito estão sempre permeando os livros de puericultura. Os conselhos sobre criação de filhos também são quase todos pautados nas consequências que um certo ato ou mesmo uma abstenção poderão causar no pequeno rebento. Não seria suficiente o argumento de tratar bem apenas por tratar bem? Por que é tão difícil escutar algo como: "respeite o seu filho porque todo ser humano é merecedor de respeito" ou "permita-se amá-lo sem limites porque amor só faz bem"?

E se engana quem pensa que o discurso baseado em prêmios futuros é difundido apenas nos meios convencionais. Até mesmo entre a dita maternagem ativa, em que os pais estão dispostos a refletir e se questionar sobre a criação dos filhos, textos relacionando a forma de maternar com os efeitos diretos gerados nas crianças são encontrados aos montes.

Não faz muito tempo circulou nas redes sociais uma pesquisa que relacionava amamentação prolongada com alto QI e renda acima da média. A despeito da questionável verdade científica implícita aí, acho muito curioso essa forma de incentivar a amamentação. Ora, não é muito difícil saber que o leite materno é o melhor alimento para o bebê, além disso, o ato de amamentar proporciona à criança um local de aconchego, carinho e proteção. Não seria isso motivo suficiente para ser adepto à amamentação prolongada? Quão válido é o argumento que promete inteligência e dinheiro para a vida adulta da criança?

Também fiquei muito intrigada ao ler um texto sobre a fase vivida por volta dos 2 anos (conhecida como terrible two) que falava da importância do uso da empatia com a criança que está vivendo esse momento. Estava achando tudo lindo, até que, novamente, vem o argumento causa-efeito: crianças que são compreendidas com 2 anos não se tornarão "monstrinhos" aos 4! E o termo usado foi exatamente esse: monstrinhos.

Meu filho, hoje, tem 2 anos. E essa é realmente uma fase difícil. Difícil porem lindíssima. É neste momento que estou me vendo lidando com um ser humano cheio de vontades, contradições e muito desejo de mostrar a todos essa autonomia. É difícil viver a divergência. É trabalhoso conciliar vontades diversas, inclusive porque ter uma vontade diversa é também uma das vontades dele nesse momento. Mas ao mesmo tempo é muito bonito perceber que aquele bebê que até então anuía ou mesmo se conformava fácil agora está se expressando e reivindicando seu lugar no mundo. Ter empatia com esse momento e respeitar essa fase é algo que me é caro não porque isso facilitará minha vida quando ele estiver com 4 anos, mas porque eu acredito que se deva respeitar os anseios de todas as pessoas, mesmos se esses anseios vierem de encontro com os meus. Respeitar não significa atender a todas as vontades, mas sim, levá-las aos menos em consideração. 

Há um certo tempo li outro texto de um pai que defendia a criação com apego. Ele afirmava que podia constatar que seu filho aos dois anos era uma criança muito autônoma porque havia sido tratada com muito respeito enquanto ainda era um bebê. Eu também acredito que crianças que sempre puderam confiar, se tornem mais confiantes. Que crianças que sempre foram respeitadas, aprendam a respeitar. Contudo, o que me incomoda é a forma determinista como isso costuma ser pregado. Como se essa atitude acarretasse em um resultado certo. O que falar, por exemplo, das crianças high need? Seriam elas mais carentes de atenção por conta de uma falha ocorrida no passado? Eu não acredito nisso. Respeitar as individualidades de cada um significa entender que cada ser humano é um universo em si mesmo. Que possuímos características distintas porque cada pessoa transforma a realidade exterior em uma vivência única. É natural, portanto, que alguém que viva cercado de violência reproduza violência. Ou alguém que viva cercado de amor, reproduza amor. Mas a vida é cheia de cores e um ato de carinho pode mudar a realidade de uma criança fadada a reproduzir ódio, como o contrário também pode acontecer.

Mas por que é tão difícil respeitar o outro sem esperar nada em troca? Sem esperar que aquilo reflita na forma como a pessoa vai construir sua personalidade? Sem esperar que nós sejamos futuramente, ainda que indiretamente, beneficiados por aquele ato? Será por isso que é tão comum encontrarmos pessoas que só tratam bem aqueles que podem, de certa forma, lhes beneficiar de alguma maneira?

Eu entendo que essa lógica do fazer hoje para ser recompensado no futuro é algo inerente do sistema capitalista. Como se tudo que nós fossemos e possuíssemos dependesse de algo que tenhamos feito no passado. Como se nosso "sucesso" dependesse apenas de nós ou de que nossos pais fizeram quando da nossa infância. E pensar a infância com essa lógica meritocrática é despejar em cima dos nossos filhos expectativas que visam cumprir o investimento dispendido!

Não raro me pego justificando certas atitudes com argumentos como esses, de que eu estaria fazendo aquilo para que no futuro meu filho agisse de determinada forma. Desconstruir esse tipo de raciocínio tem me sido uma das tarefas mais árduas desde que me tornei mãe. Abandonar essa forma de pensar pressupõe abandonar também qualquer manual ou cartilha para se criar filhos. Se cada individuo é único, não existe jeito certo e padrão de lidar com eles.

Não tenho dúvidas que princípios são aplicados de forma geral, no entanto, impor regras para amamentar, alimentar, desfraldar, alfabetizar, por exemplo, acabam passando por cima dessa individualidade e medem todas as crianças pela mesma régua. O meu lema, acima de qualquer coisa, é o respeito sempre. O respeito permite que mesmo falhando, eu possa me redimir. E me permite também escutar e avaliar o que o outro demanda de mim. Respeitar é primeiro se colocar no lugar do outro para então poder decidir qual atitude a tomar. É tirar o cuidador do foco da relação e centrá-lo na criança que demanda cuidados.

Ninguém é capaz de moldar uma pessoa. Estamos todos envoltos na chamada teoria do caos, em que um evento aleatório pode mudar a ordem das coisas. Acreditar que nossos atos trarão um resultado determinado aos nossos filhos é uma fórmula certeira para a frustração, tanto nossa como deles.

Por uma infância plena, livre de expectativas alheias, com voz e respeito ao que se é.


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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Por que a infância se torna pejorativa?

Há um tempo me chamaram a atenção para o uso do termo "infantil" de forma pejorativa. Sabe quando nos deparamos com alguém imaturo e logo dizemos: "parece criança!" ou "quanta infantilidade"? O mesmo se repete quando associamos a adolescência com comportamentos inconsequentes.
Pois então, associar a infância e a adolescência a um comportamento indesejável diz muita coisa à respeito do que realmente pensamos sobre essas fases. 

Foi então que hoje tive a sorte de ler esse texto lindo e esclarecedor da Ludmila Franca. Respeitar a criança e o adolescente significa também compreender a importância da vivência dessas fases da vida.


"Até ontem, eu chamava adultos imbecilizados, irresponsáveis, arrogantes, fúteis, superficiais e narcisistas de "eternos adolescentes". Era uma enorme injustiça da minha parte, como também um dia chamei de "infantil" esses comportamentos. É injusto associar a imaturidade natural e inerente aos processos juvenis (anímicos e biológicos) ao comportamento imaturo de quem já viveu todos estes processos de amadurecimento e opta por uma vida sem sentido e fútil dentro de panelinhas e farras sem fim. Chamar de "infantil" ou "adolescente" gente adulta que não incorpora seu tempo é uma forma de adultismo. São a infância e a adolescência similares ao comportamento deplorável do adulto? É assim que adultizamos nossos filhos, exigindo deles "maturidade" no momento em que eles ainda não dispõem sequer de estrutura biológica para tanto. É tachar seus comportamentos de forma negativa, porque são tomados pela linha de conta da perspectiva do adulto. Não. Adulto fútil é fútil. Adulto egoísta é egoísta. Adulto imbecil é imbecil. Não é "infantil" nem "adolescente", pois os comportamentos, que podem ser deploráveis na perspectiva do adulto, são normais e saudáveis na estrutura de desenvolvimento de crianças e adolescentes. É o adulto que está fora de lugar e de tempo, e não o comportamento do jovem que é "errado". 

Essa deslegitimação adultista produz, para a juventude, o fardo de ter suas condutas medidas pela mesma régua com que se mede as condutas dos adultos. Disso surge, por exemplo, o desejo punitivo e policialesco de reduzir a maioridade penal para 16 anos, impondo responsabilidades adultas bem no meio do processo de desenvolvimento juvenil, como se o jovem já pudesse arcar com o mesmo que um adulto. Também surgem as projeções, que gostam de colocar crianças sérias, vestidas com elegância, sofisticação e requinte, tocando violinos, ouvindo Mozart e discutindo Van Gogh aos 5 anos de idade, que não assistem desenhos animados e outras "infantilidades", mas sim a filmes do Von Trier, que falam 8 idiomas antes de completar 10 anos e que se preparam para fazer vestibular com 16 anos para "orgulhar" seus pais, que dirão: eis aí os meus genes, olha como sou fantástico, olha meu clone! Orgulho, na língua dos pais, é puro narcisismo, que transforma filhos em meros aglomerados de "meus genes", joguetes de frustrações, espelhos onde eu me admiro.

A expressão "eterno adolescente", assim como outrora o "adulto infantil", morreu no meu vocabulário. Breve serei mãe de uma adolescente e espero poder ampara-la neste difícil - porém bonito - momento de crescer e amadurecer, sem julgamentos e intolerância. Apenas amor, paciência, acolhimento e muito (mas muito!) respeito."



Agradeço também à Cristiane Matos que trouxe a reflexão quanto ao uso do termo “infantil” de forma pejorativa.
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