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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Livro da Maternagem - Resenha

Este foi o livro que me abriu as portas para o início de outras leituras sobre maternidade. Ele foi idealizado por uma pediatra, a Drª Thelma de Oliveira conhecida como Drª Relva, e foi inspirado em uma comunidade formada no Orkut, a Pediatria Radical. O livro é uma coletânea de textos sobre os mais variados assuntos que envolvam a maternagem escritos pela Drª Relva ou por outras mulheres que de alguma forma estavam ligadas pela comunidade virtual.

O resultado é um livro que preza pela maternagem com respeito à criança e a seus cuidadores, numa linguagem super acessível e que foge ao senso comum. Ele é imenso e conta com mais de 700 páginas, mas é feito para ser lido à medida que a curiosidade vai aparecendo. Como dito, os temas são bastante variados, e vão desde gravidez, parto, amamentação, sono, cuidado com o bebê, com a criança, introdução alimentar, passando por início da escolarização, obesidade infantil, papel do pediatra até a chegada de um irmãozinho. Conta ainda, com uma vasta bibliografia. Portanto, é um livro muito bacana para se ter sempre à mão para uma eventual consulta.

Para quem se interessa por um exercício da maternagem que foge aos padrões doutrinários e consumistas, ele é um prato cheio! Ressalto, que não se trata de um manual, tampouco uma cartilha sobre criação de filhos, ele é sim uma ferramenta que ajuda a lidar com situações de acordo com a realidade de cada criança e de seus pais. Inclusive, é uma excelente opção de presente para amigos que estão se preparando para serem pais.


Para saber mais sobre o livro, recomendo esta leitura. E ele pode ser encontrado aqui.


Por aqui tem também resenha do livro Sermões de Ser Mãe e Eu não quero (outra) cesárea. E a lista completa de livros sobre maternidade.







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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sermões de ser Mãe - Resenha


Quando estava por volta do fim do puerpério comecei a ler compulsivamente. Primeiramente eram apenas os posts sobre maternidade, que logo passaram a acompanhamento assíduo de blogs para então começar a leitura de livros. Pretendo aqui escrever sobre todos esse livros que tenho lido desde então.

E, foi mais ou menos nesta época que fui apresentada ao livro "Sermões de ser Mãe" de Mariana de Lacerda. Um testemunho sincero de uma mãe sobre sua experiência de maternidade e sobre seu puerpério.

Para quem não sabe, puerpério é aquele período pós-parto, que tecnicamente costuma ser de 40 dias, mas que de fato pode durar muito mais do que isso. Para mim, durou cerca de um ano. E foi difícil, angustiante e sofrido. Gosto muito dos textos da Renata Penna sobre o assunto e ela define o puerpério como um luto. E acho que é bem por aí. O puerpério é um momento de introspecção, auxiliado pela bomba de hormônios que ocorre após o nascimento, em que percebemos a transformação que a maternidade traz: momento de deixar morrer a mulher que fomos para nascer uma pessoa nova. E o luto não é um período feliz, mas pode ser necessário. E, a despeito do que quero trazer aqui, está rolando um projeto muito legal da Ligia Moreiras Sena, do Cientista que virou Mãe, que vai transformar em documentário o depoimento de mulheres sobre esse período. Período este em que se preocupam muito com o bebê, enquanto a mãe está em frangalhos.

Enfim, acho bem importante pontuar a importância do puerpério porque foi através do livro da Mariana (sim, me sinto íntima) que eu consegui passar por este momento. Eu o encontrei através da resenha feita pela Isa Kanupp, do Para Beatriz, que é excelente!

Embora o livro tenha sido escrito quando a Estela (filha da Mariana) já tinha 7 anos, ele aborda os primeiros dois anos após o nascimento. A autora analisa o contexto social da maternidade: como ele era vivido antigamente e como o fazemos agora. A forma como criar filhos tem se tornando cada vez mais uma experiência solitária. Além disso, a expectativa das mulheres das gerações passadas era a de se tornar mãe. De alguma forma, maternar era o objetivo social das mulheres. E, hoje, espera-se que as mulheres estudem, construam uma carreira profissional, enquanto que não há estímulos para que a mulher possa se dedicar ao cuidado dos filhos sem prejuízo das outras esferas. Ao mesmo tempo, os homens continuam a sua vida pós nascimento com poucas alterações em relação à vida sem filhos.


Há, inclusive, um trecho do livro que me marcou muito em que ela conta como se sentia injustiçada pela sua vida ter mudado tanto enquanto que o marido continuava a sair lindo e cheiroso para o trabalho. Ah, como me identifiquei com isso!!!



Mariana aborda, então o contexto social, a expectativa que se coloca sobre as mães, o parto, a amamentação, o desmame, o casamento e, ainda, um visão psicanalítica sobre o assunto. Para mim, foi uma porta de entrada para a literatura existente sobre a maternidade. É um relato sincero em um discurso que parece uma conversa de amigas, de mãe para mãe.

Certa vez, emprestei este livro a uma amiga que, ao final da leitura, disse que apesar de ter gostado muito, sentiu muita culpabilização. Ora, era assim que eu me sentia. Eu, que nunca tinha pesquisado a fundo sobre maternidade, trazia a ideia do senso comum: que mulheres sabem ser mães, que sempre sabem o que é o melhor para o bebê e que a maternidade é uma fonte inesgotável de felicidade. Como não sentir culpa ao não me sentir feliz daquele jeito?

Recomendo muito, não só às mães, mas também aos pais para que possam entender melhor como suas companheiras se sentem; às pessoas que desejam a maternidade/paternidade e também a todo mundo que se interesse pelo tema.


O livro pode ser encontrado aqui.

*Também escrevi uma resenha sobre o livro "Eu não quero (outra) cesárea" aqui.





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terça-feira, 30 de junho de 2015

Relato de Parto (41 + 1): Entendendo violências

Relatar o parto, além de ressignificar os acontecimentos vividos, é também uma forma de tornar acessíveis as reais circunstâncias do nascimento, desmistificando-o e apresentando um ponto de vista de experiência.

Eu só consegui relatar o meu parto dois anos após o seu acontecimento. E poder por em palavras as angústias vividas foi libertador. E, somente agora, quase dois anos e meio depois, é que consigo fazer o relato em forma de texto. Portanto, já adianto que este não é um daqueles relatos que o final é lindo e acontece como o esperado.

·         O pré-natal
Assim que me descobri grávida, eu já tinha certeza sobre qual a via de nascimento que desejava. Para mim, ser a protagonista deste momento era muito importante. Mesmo vindo de uma família que a última geração de mulheres não pariu e tendo um círculo de amigas com poucas mães (em que quase todas optaram pela cesárea), ainda assim, resolvi buscar informação em busca de um parto normal.

E era só isso. Um parto normal. Acreditava que parir por si só já era um ato revolucionário. Comecei a ir a um GO indicado por uma amiga. Logo na primeira consulta ele me garantiu que poderíamos tentar um parto normal, apesar da minha idade. Ele afirmou que como eu tinha 27 anos, poderia ser que não tivesse dilatação. Hoje, vejo que essa afirmação é tão absurda que eu deveria ter saído correndo de lá na mesma hora. Mas naquela época, eu só fiquei desconfiada. Então, por conta disso, resolvi iniciar o pré-natal também pelo SUS, embora ficasse arrepiada de pensar nos inúmeros relatos de violência obstétrica que se passam na rede pública. Segui assim, com dois acompanhamentos de pré-natal por um bom tempo.

Conforme o tempo ia passando, comecei a perceber que todas as pacientes daquele GO haviam passado por uma cesárea. A secretária chegou a me dizer que acreditava que a taxa de cesárea dele girava em torno de 95%. Mas quando eu perguntava àquelas mulheres o motivo da cirurgia, a resposta nunca era uma escolha delas. Sempre havia alguma indicação médica. Parecia até que todas as indicações reais de cesárea (que pela OMS não ultrapassa os 15%) eram ironicamente pacientes daquele médico. Além disso, quando perguntava a ele sobre os partos normais que ele havia assistido, todos pareciam ser realizados às pressas. Ou seja, pareciam ser aqueles bebês que não esperam por uma cesárea, o chamado “parto quiabo”: nasce escorregando.

Foi mais ou menos nesta época, com uns 4/5 meses de gestação, que eu resolvi parar de ir às consultas do SUS. Ficava muito insegura de estar à mercê da equipe plantonista. Mas também não estava confiante em relação àquele GO do plano. Procurei, então, um GO que me atendia antes da gravidez. Mas para o meu desespero, apenas na consulta ele me informou que tinha optado em atender somente ginecologia e não assistia mais partos. Sai de lá com três números de colegas indicados por ele. Dois deles tinham consulta disponível apenas para dali a 3/4 meses, o que ficava inviável para mim. Fui então à colega que restou.

A médica atendia pelo plano, mas a primeira consulta era particular. Mesmo assim, resolvi tentar. Gostei muito porque senti que com ela era possível ter um parto normal. E era isso que me importava na época, não tinha noção que mais importante do que encontrar um profissional que não te induza à cesárea, é buscar por aqueles que respeitem os desejos e o tempo da paciente. Ou seja, que respeite o protagonismo da mulher e não utilize de intervenções desnecessárias que só fazem acelerar o trabalho de parto deixando todo o processo mais dolorido e estressante. E, portanto, eu não percebi quão ofensivo foi quando ela me disse que buscava sempre por um parto normal, contudo, aliado à ciência e “não essas coisas de parteira, e parir na água...porque isso é um retrocesso em vista do avanço científico”. (Infelizmente, este também era meu pensamento naquela época. Parir em casa só podia ser coisa de gente maluca.) Eu estava diante de uma profissional que medicaliza o nascimento. Por sorte, me livrei dela quando ao sair do consultório, fui informada pela secretária que o pré-natal era coberto pelo convênio, mas o parto era particular, e o preço bem salgado.

No entanto, ainda que já estivesse procurando outro GO, continuava a ir às consultas do GO “fofo”.  Como se não bastasse todas as evidências de que ele era um médico cesarista, eu ainda não estava convencida. Mas, neste momento, eu começava a entender o que eram as intervenções desnecessárias e perguntei a ele sobre a episiotomia. E foi aquela resposta que me fez decidir a nunca mais voltar lá. Ele me garantiu que episiotomia era um procedimento necessário e de rotina.

Já no meio da gravidez, conheci o obstetra que me acompanhou no dia do nascimento. Sentia confiança nele e sabia que com ele o meu desejo por um parto normal seria respeitado.
Foi então que um acontecimento burocrático minou as minhas chances de conseguir um parto normal.

Minha DPP era para o dia 21/01. Eu acreditava que o nascimento ocorreria antes disso. Era o que todos me falavam. Hoje eu vejo o porquê. Todos que eu conhecia tinham experiência de cesárea eletiva ou de partos rápidos. Por conta desse elevado número de cirurgias, atualmente, é muito difícil ver alguma gravidez que passe de 40 semanas, embora hoje eu saiba que para primíparas é muito normal que o trabalho de parto só inicie após este prazo.

No começo de janeiro meu marido recebeu uma proposta irrecusável de emprego. Essa mudança acarretaria também na mudança de plano de saúde, o qual eu era sua dependente. Liguei para o plano antigo e fui informada que ele seria válido apenas até o dia 31/01. Segundo informações que obtive na época, essa era a data limite para a alta no hospital. Portanto, como a internação é de no mínimo dois dias, o Daniel teria que nascer até o dia 29/01. Nesta data, eu estaria com 41 semanas e 1 dia. Como disse, acreditava que esse prazo era suficiente para eu entrar em trabalho de parto. Ainda assim, para me garantir, entrei em contato com o novo plano. Porem, como a contratação ainda não tinha sido formalizada, eu não possuía o número da carteirinha do plano e, assim, não souberam me informar se haveria exigibilidade de carência para cobertura de parto ou não. (Hoje eu sei que planos empresariais realizados por empresas com mais de 30 funcionários não podem exigir carência, ou seja, eu poderia ter esperado mais tempo que estaria segurada pelo novo plano, mas esta informação me faltou).

Devido a esta nova circunstância, eu tinha um novo prazo para entrar em TP: 29/01. O tempo foi passando e não tinha nenhum sinal que entraria em TP. Barriga continuava super alta. Tomei vários chás, andava muito todos os dias e nada. Na segunda feira, dia 28/01, fui aos prantos ao que sabia ser a ultima consulta do pré-natal. Sai de lá com o pedido de internação para tentar uma indução.

·         O nascimento
Dei entrada no hospital no final da noite. Sempre respondendo para a atendente que “Não moça. Eu não sei o horário da cirurgia. Eu vou fazer uma indução”.

Por volta de 1h, o médico plantonista chegou para iniciar a indução por misoprostol. Pouco menos de uma hora depois, eu já começava a sentir as contrações. Mesmo muito ansiosa, consegui cochilar depois disso. Acordei novamente, às 5h e as contrações já estavam começando a ficar rítmicas, com intervalo de 8/8min. Continuei deitada até que a dor ficou mais intensa. Meu marido acordou também e fomos andar pela maternidade. Eu ainda não gritava, mas apenas pelo meu semblante de dor, percebia que chamava a atenção das enfermeiras que me olhavam como se nunca houvessem antes visto uma mulher em trabalho de parto.

Já às 7h, trouxeram o café da manhã, mas eu não consegui comer nada devido a dores. Poucos minutos depois, o meu GO chegou ao quarto. Auscultou o coração do bebê e percebeu uma disritmia. Pediu para que me preparassem para ser levada ao centro obstétrico. Coloquei a camisola e fui levada de cadeira de rodas, embora tivesse plenas condições de ir andando.

No CO, as contrações já não tinham mais intervalo. Vinham uma após a outra e pude perceber que algo não estava correndo bem. O médico chamou a enfermeira e pediu para que ela trouxesse um medicamento que cortaria o efeito da indução. Ela, na minha frente, respondeu que aquele remédio não era para este fim. Ele insistiu dizendo que sabia o que estava fazendo. Ao que ela respondeu que eles não tinham aquele medicamento no hospital e ela deveria busca-lo em uma farmácia. Após ela sair, ele comentou comigo que as enfermeiras de hospital privado não estão acostumadas com induções de parto e desconhecem o procedimento.

Cerca de 30 minutos depois, ela voltou com a medicação e após algum tempo comecei a sentir novamente intervalo entre as contrações. O GO me adiantou que como eu estava sem dilatação, o TP ainda poderia durar cerca de 8 horas. Em vista disso, ele disse que teria que visitar outras pacientes e que voltaria em cerca de 1 hora.

Neste momento, as dores das contrações já eram suportáveis. Chamei a enfermeira e pedi para voltar ao quarto. Ora, eu estava numa sala de no máximo 4m² e sozinha! Com a negativa, pedi para que chamassem meu marido. Apesar de lei federal que garante a presença de acompanhante, esse pedido também me foi negado. Então, pedi para comer e tomar água. E, novamente, não fui atendida.

Não é de se espantar que diante deste quadro, sozinha, em TP, sem comer, tomar água ou poder me movimentar, comecei a ficar muito nervosa e ansiosa.
Foi quando, logo depois, meu marido conseguiu entrar no CO após muito brigar com a enfermeira. Neste momento, as contrações já estavam ficando mais fortes e com as dores ouvi um PLOC. Já sabia o que aquilo significava. Sabia que minha bolsa tinha rompido e fui ao banheiro.

O único banheiro do CO era sujo e escuro. Mas, ainda assim, percebi a cor esverdeada do líquido amniótico. Chamei a enfermeira e informei a ela que minha bolsa havia rompido com a presença de mecônio. Ela pediu para que me deitasse e me disse que eu estava enganada: “você está sequinha”.

No mesmo momento, o GO retornou e eu o avisei que não obstante a opinião da enfermeira, eu sabia que a bolsa tinha estourado com mecônio. Neste momento, as dores já estavam insuportáveis. Ele pediu para que eu me deitasse e fez um exame de toque super dolorido. Ele confirmou a presença de mecônio e constatou que eu ainda não tinha qualquer dilatação. Informou a mim e meu marido que aquele prazo de 8 horas ainda se mantinha e perguntou qual seria nossa decisão.

Neste momento eu já tinha consciência que a indução de parto não foi bem sucedida. Foi ela que levou ao início de sofrimento fetal, apontado pela alteração nos batimentos cardíacos, e que tinha levado à presença de mecônio na bolsa. Fora isso, as dores estavam insuportáveis e eu não tinha nem começado a dilatar. A decisão pela cesárea quedou inevitável.

Com isso, o médico saiu para se preparar para a cirurgia e eu comecei a perceber o desespero das enfermeiras. Elas cochichavam, como se eu não estivesse presente. Eu urrava de dor e uma delas me disse repetidas vezes: “Ué? Mas você não queria parto normal?” Ninguém é capaz de imaginar o ódio que sinto dessa mulher até hoje.

Me levaram à sala de cirurgia. A anestesista insistia para que eu me sentasse e ficasse com as costas curvadas. Mas eu, novamente, não tinha mais intervalo entre as contrações, e ficar sentada era uma tortura. Depois de algumas tentativas, ela conseguiu aplicar a anestesia e eu fiquei chapadíssima. Apesar da tristeza por saber que eu não teria um PN, fiquei feliz em não sentir mais aquela dor.

Alguns minutos depois, o médico entra calmamente na sala de cirurgia. Algumas enfermeiras tentam o apressar lembrando que havia mecônio na bolsa. Hoje eu percebo o completo despreparo daquelas profissionais.

A cirurgia começou e eu não estava participando de nada. A mim, só restou ficar olhando o relógio pendurado na parede da sala. 11h45 foi quando percebi que o Daniel foi erguido pelo médico. Ele não chorou. Foi aspirado assim que nasceu. Levaram-no e logo trouxeram enrolado em panos do hospital para que eu pudesse vê-lo. Sim, apenas ver. Neste momento eu me dei conta que estava amarrada, na mesma posição da crucificação. Outro procedimento totalmente desnecessário. Por conta das amarras, não pude tocar meu filho. Fiquei tão atônita que também não consegui falar com ele. Pela foto, é possível perceber tamanha insensibilidade da enfermeira. No momento em que eu via meu filho pela primeira vez, e percebia que estava amarrada, a enfermeira aplicava alguma injeção em meu braço.



Ele foi novamente levado e passou por todas aquelas intervenções hospitalares de praxe. Meu marido filmou tudo. Hoje, quando revejo as imagens, assemelho aquilo a uma sessão de tortura. Aplicaram-no colírio de nitrato de prata, mesmo eu tendo feito pré-natal com o mesmo médico que me operou e comprovado que eu não tinha nenhuma doença venérea. Realizaram a medição de comprimento, mesmo ele ainda estando com as pernas na mesma posição que ficara por nove meses. No vídeo, é possível observar que ela puxa sua perna repetidas vezes, o que lhe causa um choro alto e sentido.



Quando o médico terminou a cirurgia, veio falar comigo, e eu lhe perguntei primeiramente se caso engravidasse de novo, se poderia ter um parto normal. Ele respondeu afirmativamente. Depois lhe perguntei se aquela dor insuportável era assim mesmo, ele apenas confirmou. Hoje sei que a indução de parto, seja ela por misoprostol ou ocitocina, provocam dores muito mais intensas do que aquelas contrações causadas por hormônios naturais. Além disso, as dores costumam aumentar depois que a bolsa estoura já em TP.

Após a cirurgia, eu fiquei cerca de 2 horas numa sala escura junto de outras duas mulheres. Tentava mexer os dedos do meu pé a todo custo para poder finalmente ir para o quarto. Quando consegui, chamei a enfermeira que me disse que não podia me levar naquele momento, pois era hora de almoço e estava sozinha no plantão. Esperei mais alguns minutos e fiquei surpresa quando cheguei ao quarto e o Daniel não estava lá. Meu marido foi quem me informou que ele estava numa incubadora recebendo oxigênio. Ele nasceu com apgar 8/10. 8/10!!! Seria mesmo necessário deixá-lo por mais de 4 horas em uma incubadora??? Eu só fui poder tocar no meu filho depois de 4 horas após o nascimento. Esse período me pareceu uma eternidade.

Em sua carteira, que recebemos após a alta, constou 3,520 kg, 50cm e 40 semanas. Apesar de eu estar com 41 + 1 semanas de gestação, a idade dele foi de 40 semanas. É muito comum essa disparidade, e pode chegar até duas (às vezes 3) semanas de diferença.

Segundo o GO, muito provavelmente a minha hiperreação à indução se deu pelo fato de que eu entraria em TP naturalmente naquela madrugada. Não ter podido esperar e ter passado por toda essa situação de violência obstétrica afetou em muito a minha maternagem nos primeiros meses de vida do meu filho.

Não é o fato de ter passado por uma cesárea. E sim por ter durante toda a gestação buscado por profissionais que me assegurassem um direito de escolha e ainda assim, ter sido violentada. Fico muito grata pela amamentação ter se estabelecido de uma maneira tão fácil e indolor que me garantiu um vínculo forte e segurança durante o puerpério.

O dia do nascimento do meu filho foi também um dia que me senti muito violentada e eu não desejo isso a ninguém.

Para quem tem condições de arcar com o custo, recomendo muito a contratação de uma doula. Esta profissional tem contatos, conhece a realidade do sistema obstétrico, sabe nomear e apontar violência obstétrica. Ainda que o parto aconteça no SUS, a sua presença pode ser fundamental para se evitar procedimentos desnecessários.

Gostei muito dessas dicas, mas é necessário que se aponte que esse “empoderamento” é algo inacessível amuitas mulheres. E quando estamos pensando no coletivo, é necessário falar sobre as estruturas que mantem este sistema falido e não adestrar a mulher para que consiga driblá-lo.

*Agradeço à Letícia pelo acolhimento quando os sentimentos já não suportavam a ausência de palavras.

** A indução com misoprostol pode acarretar em: "O misoprostol tem como efeito colateral excesso de contrações uterinas (taquissistolia), hipertonia uterina (contração que não passa), náuseas e diarreia. Este excesso de contrações uterinas pode levar a sofrimento fetal e por isso toda indução com misoprostol deve ser adequadamente monitorizada e deve ser realizada em ambiente hospitalar. A presença de cesárea prévia é uma contra-indicação relativa ao uso do misoprostol." Fonte aqui.


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sábado, 21 de março de 2015

Empoderar-se para parir?

O sistema obstétrico brasileiro está fadado a reproduzir cada vez mais violências obstétricas. Sendo o parto um evento fisiológico e não patológico, não condizem com sua assistência procedimentos que priorizem a celeridade, a medicalização e a instrumentalização. Enquanto continuarmos a manter esse mesmo sistema, práticas violentas continuarão a se repetir. Este é um assunto bastante espinhoso e há um certo tempo eu venho refletindo sobre ele.

Em vista deste quadro, surge no Brasil um grande movimento que luta pela humanização do nascimento. Humanizar o parto, em poucas palavras, é respeitar o protagonismo da mulher, dando a ela o seu tempo para parir e evitando ao máximo a realização de intervenções.

E neste momento que o movimento vem encontrando cada vez mais forças é que se faz muito necessário falar sobre violência obstétrica e denunciar os fatores que levem a ela. Contudo, quando este tema vem à tona, é muito comum ouvir sobre o empoderamento da mulher como se a falta dele fosse também um dos fatores que a levassem juntamente com seu bebê a serem violentados. E, sobre esse posicionamento, eu discordo veementemente.

Colocar a falta de empoderamento como um fator que leva à violência é, no mínimo, uma argumentação deslocada. O empoderamento pode até ser colocado como uma tática de defesa, mas nunca como uma causa sob pena de culpabilização da vítima.

Primeiramente, neste contexto, a palavra empoderamento geralmente é lida em um sentido coletivo e não de empoderamento individual. Ao analisar a origem do termo, percebe-se que é um contrassenso. Empoderamento vem do termo em inglês “empowerment” e é um termo capitalista adotado pela administração de empresas para ensinar os funcionários a delegar tarefas. É um termo que foca no individualismo e tem bases na meritocracia. Trabalha a noção de que o indivíduo por si só é capaz de promover as mudanças necessárias a ele, que cada um se basta por si, e aí cai na meritocracia que move toda a máquina do capitalismo. Foca-se no indivíduo e despreza-se a rede de pessoas, o coletivo.

E eu entendo que no contexto da humanização, a palavra empoderamento possa ter tomado outro significado. No entanto, acredito que as palavras têm força. E insistir no uso do empoderamento, como se para se fortalecer seja necessário estar tomado de poder, para mim é continuar no embate. Porque o significado de poder exige dominação e submissão, ou seja, você luta pelo respeito pelo nascimento mas reforça a lógica de dominação já enraizada no status quo. Porque violência obstétrica é dominação e submissão. É tirar o protagonismo da mulher sobre o parto e sobre seu próprio corpo.

Reger suas próprias escolhas, se afirmar, se reconhecer é muito importante. Mas não acho que tenha a ver com poder. E acho estranho ressignificar um termo dentro de um grupo apenas.

Todavia, é certo que essa busca de conhecimento e de auto-estima da mulher, influencia no coletivo. Essa cultura de "luta" pelo parto desejado, fomentada por relatos de parto e pelas redes sociais, acaba de certa forma promovendo uma mudança cultural, em que o parto passa a ser novamente desejado e em que as mulheres vão se tornando mais ativas e exigentes, se colocam mais no processo de pré-natal e parto. Isso não é garantia de nada, mas gera um desconforto nos serviços. E no momento que as mulheres se organizam e, mesmo a partir de casos individuais, passam a coletivamente dar visibilidade às falhas da assistência que sofreram, cresce a intensidade da discussão sobre o tema. Acho que estamos passando por esse processo.

Isto foi só pra explicar minha birra com o termo e minha dificuldade de entendê-lo como algo coletivo. Mas entendo o uso da expressão.

Pausa para reflexão porque aqui se faz muito necessário um adendo sobre a utilização desta expressão, o tal do empoderamento.

O texto acima foi escrito antes de me deparar com este outro texto. Ele defende uma linha parecida com o que expus aqui, embora ache muita coisa problemática, tem muita cagação de regra aí. Mas então, em resposta a ele, me apresentaram um contraponto. Sou uma mulher branca, e este meu privilégio me cega de certa forma. No entanto, por sorte, encontrei algumas feministas negras porretas no meu caminho, que me fizeram apontamentos muito necessários. Até que ponto empoderar-se, ou seja, encher-se de poder não é vital para minorias? E, dentro do contexto do feminismo, considerando as opressões oriundas de um sistema patriarcal, empoderar-se pode sim ser muito importante. Mas, ressalto, isto porque se trata de um sistema de embate, de opressão. Porem, focando no nascimento, deveria a mulher se armar para parir?

É muito comum dentro do movimento da humanização ouvir que TEM que se estar empoderada para parir, como se o empoderamento fosse condição sine qua non. Já ouvi grandes vozes da humanização dizendo que não sofreram violência obstétrica porque estavam empoderadas. Isso, para mim, soa como se quem sofreu é porque não se empoderou. É culpabilizador! Acaba transferindo para a mulher a culpa pela violência, da mesma forma que o machismo sempre faz. E isso num momento de extrema fragilidade que é o trabalho de parto e o nascimento em si.

Talvez seja verdade que estar empoderada pode evitar a violência (repito, pode evitar, mas NUNCA causar), mas peitar o sistema é muito mais uma contrarreação do que uma causa. E, por isso, vejo o empoderamento como uma tática de contra-ataque. Ora, nos países onde o respeito na hora do parto é regra, o empoderamento não é tão necessário. Inglesas e holandesas, por exemplo, não precisam da mesma postura que uma brasileira para que seja respeitada em seu parto. Então, isso é consequência, e não causa. O sistema obstétrico atual deixa a mulher em situação passiva. Todo o protagonismo do parto lhe é retirado, e isso não é causa e sim, efeito. Empoderar-se é uma forma de reagir a isso, e não uma causa do sistema violento.

O enfrentamento é uma das nossas poucas armas de defesa. Mas, veja, estamos falando de nascimento e não de guerra e é terrível pensar que temos que nos armar. E alguém já ouviu falar de empoderar homem? Não precisa né? Eles têm todas as instituições ao seu lado, não precisam de empoderamento, por isso acho que esse é um fator secundário, que é mais uma defesa consequente da existência dos outros fatores.

Esses caminhos de resistência e criação de linhas de fuga ao sistema obstétrico, o que se costuma chamar de "empoderamento", são estratégias que as mulheres constroem frente a um terreno inóspito de assistência. No entanto, a assistência digna é um direito, e a não oferta desse direito jamais poderá ser atribuída à passividade, não empoderamento, ou o quer que seja por parte das mulheres.

E o conhecimento, educação em saúde, deveria estar disponível a todas, é um direito das usuárias do sus ou do sistema suplementar. Estamos falhando nisso, é uma questão de saúde pública também. Então são estratégias que buscamos para conseguir parir, suprindo as falhas do nosso sistema de atenção, mas a ausência destas estratégias não é justificativa para atenção ruim ao parto - e com frequência as coisas são colocadas nesses termos.

Ainda, o fato de confiarmos decisões sobre nossa saúde a quem usa jaleco branco, por exemplo, não é consequência de "baixo empoderamento" feminino, mas um sintoma social. A medicina historicamente detém o poder sobre a vida, não é na conta das mulheres e sua suposta baixa autoestima que isso deve ser depositado, a meu ver. Tornar-se empoderada significa reagir a toda e qualquer forma de violência, não reagir significa "falta de empoderamento"?

Eu vejo que o ideal seria que VO fosse uma exceção. E que nós não tivéssemos que praticamente nos formar obstetriz para parir. Empoderar- se é uma das poucas armas que temos para conseguir respeito. Mas, respeito deveria ser algo que nos fosse garantido sem luta. Portanto, deixar de se empoderar, por qualquer motivo, não poderia ser justificativa para que fossemos violentadas.

Se uma mulher deixa de sair à noite, ou passa somente a usar roupas que não chamem a atenção, ela diminuirá o risco de ser estuprada. Mas, se ela abrir mão dessa tática e for estuprada, o fator que contribuiu para que o crime acontecesse não pode ser atribuído a ela, e sim ao ato do estuprador, não é mesmo?

Então, falemos sobre "empoderar" mulheres, mas falemos como uma forma de se prevenir, e não como fator de ocorrência da violência.

Inclusive, eu fui encaminhada para a cesárea muito rápido. Foi tudo uma correria porque foi uma cesárea de emergência. E, depois que meu filho nasceu, a pediatra o trouxe para que eu pudesse vê-lo e ao querer tocá-lo, eu percebi que estava com os braços amarrados. Pedi para que me soltassem, mas disseram que não podiam. Como reagir? Eu me senti muito mal, mas só vim a saber que aquele procedimento não era padrão dias após a cirurgia.

E o que dizer das mulheres que pedem para não serem cortadas e, ainda assim, sofrem episiotomia? Não seria dever do médico se basear em evidências científicas e saber que aquele procedimento mutilador não deve ser de rotina? E, quiçá, não deveria ser feito nunca? Vide a experiência da Dr. Melania Amorim, que há anos não realiza mais episiotomias.


Imagem do Projeto Fotográfico 1 em 4 de Carla Raiter

É difícil reagir perante um sistema médico, cheio de procedimentos, se não se tem ferramentas para saber se aquilo é padrão ou se não é necessário.

Todo mundo sabe que o sistema obstétrico é muito cruel pra exigir que a mulher defenda seu parto ali naquele momento de tanta sensibilidade e fragilidade. A mulher que está empoderada e aos berros exige que não façam episiotomia e mesmo assim o médico faz, faltou lhe auto-estima?

E não poderia esquecer também dos casos da Adelir e da parturiente de Natal, que ficou tristemente conhecida como a “comedora de placenta”. Aquelas mulheres, ainda que muitíssimo empoderadas sofreram violências obstétricas inimagináveis e terríveis.

E, portanto, é necessário, para além do empoderamento, falar do lugar social da mulher. Se não, acabamos caindo no mesmo discurso falacioso da meritocracia. Existem hierarquias reprodutivas de acordo com a classe, idade, parceria sexual e a raça. Por isso a VO acontece muito mais nas mulheres negras e pobres, muito mais em mulheres que não vivem uma relação heteronormativa e monogâmica, mulheres que têm dst, usuárias de drogas, moradoras de rua, etc. Essas são as mulheres da "maternidade subalterna". E o empoderamento, para muitas mulheres, pode não fazer diferença alguma. 

Que sigamos lutando por uma assistência ao parto digna e respeitosa. Que haja verdadeiro respeito pela escolha das mulheres. Que elas possam livremente decidir por parir ou pela cirurgia. No hospital, na casa de parto ou em casa. Que seu protagonismo seja visto como um direito fundamental. Que não mais a responsabilizemos por serem violentadas.

Todas essas considerações não foram feitas por mim apenas. Elas foram discutidas com mulheres muito queridas e que muito contribuíram para que essas reflexões fossem feitas.

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