quarta-feira, 22 de julho de 2015

Livros sobre maternidade


Segue abaixo a relação de livros sobre maternidade que já tive oportunidade de ler (ou que estão na fila para isso) e minha avaliação sobre eles:




1.    Alice Miller

A revolta do corpo

Avaliação: Na fila para leitura









2.    Alice Miller

A verdade liberta

Avaliação: «««««






3.    Alice Miller

O drama da criança bem dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos

*Não se deixe enganar pelo título! A tradução foi muito infeliz. O título original é “Das Drama des begabten Kindes: Und die Suche nach dem wahren Selbst.” Que poderia ser traduzido para: “O drama da criança sensível: e a busca pelo eu verdadeiro”

Avaliação: «««««ô





4.    Alice Miller

Não perceberás: variação sobre o tema do paraíso

Avaliação: «««««










5.    Alice Miller

No princípio era a educação

Avaliação: «««««










6.    Carlos González (Leia a resenha aqui!)

Bésame mucho: Como criar seus filhos com amor

Avaliação: «««««ô










7.    Carolina Pombo

A mãe e o tempo

Avaliação: «««¶¶








8.    Donald W. Winnicott

Os bebês e suas mães

Avaliação: ««««








9.    Elisabeth Badinter

O Conflito: A mulher e a mãe

Avaliação: 








10. Elisabeth Badinter

Um amor conquistado: o mito do amor materno

Avaliação: «««¶¶










11. Laura Gutman

Maternidade e o encontro com a própria sombra: o resgate do relacionamento entre mães e filhos

Avaliação: «««¶¶







12. Laura Gutman

Mulheres visíveis, mães invisíveis

Avaliação: «««¶¶







13. Laura Gutman

O poder do discurso materno

Avaliação: ««««







14. Ligia Moreiras Sena e Andréia C. K. Mortensen

Educar sem violência: criando filhos sem palmadas

Avaliação: ««««







15. Luciana Benatti e Marcelo Min

Parto com amor: Em casa, com parteira, na água, no hospital. Histórias de nove mulheres que vivenciaram o parto humanizado.

Avaliação: «««««






16. Luciana Carvalho (Leia a resenha!)

Eu não quero (outra) cesárea: Ideologia, relações de poder e empoderamento feminino nos relatos de parto após cesárea

Avaliação: «««««







17. Mariana de Lacerda (Leia a resenha!)

Sermões de ser mãe

Avaliação: «««««










18. Michel Odent

A cientificação do amor

Avaliação: Em leitura









19. Thelma de Oliveira (Dr. Relva) (Leia a resenha!)

Avaliação: ««««







   20. Ulrich Koch

Vacinar sim ou não? Na infância e na idade adulta – Orientação na perspectiva homeopática

Avaliação: ««««






Legenda de Avaliação:
«««««ô    = Fodástico
«««««       = Excelente
««««       = Muito bom
«««¶¶       = Bom
««¶¶¶       = Regular
«¶¶¶¶       = Ruim





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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sermões de ser Mãe - Resenha


Quando estava por volta do fim do puerpério comecei a ler compulsivamente. Primeiramente eram apenas os posts sobre maternidade, que logo passaram a acompanhamento assíduo de blogs para então começar a leitura de livros. Pretendo aqui escrever sobre todos esse livros que tenho lido desde então.

E, foi mais ou menos nesta época que fui apresentada ao livro "Sermões de ser Mãe" de Mariana de Lacerda. Um testemunho sincero de uma mãe sobre sua experiência de maternidade e sobre seu puerpério.

Para quem não sabe, puerpério é aquele período pós-parto, que tecnicamente costuma ser de 40 dias, mas que de fato pode durar muito mais do que isso. Para mim, durou cerca de um ano. E foi difícil, angustiante e sofrido. Gosto muito dos textos da Renata Penna sobre o assunto e ela define o puerpério como um luto. E acho que é bem por aí. O puerpério é um momento de introspecção, auxiliado pela bomba de hormônios que ocorre após o nascimento, em que percebemos a transformação que a maternidade traz: momento de deixar morrer a mulher que fomos para nascer uma pessoa nova. E o luto não é um período feliz, mas pode ser necessário. E, a despeito do que quero trazer aqui, está rolando um projeto muito legal da Ligia Moreiras Sena, do Cientista que virou Mãe, que vai transformar em documentário o depoimento de mulheres sobre esse período. Período este em que se preocupam muito com o bebê, enquanto a mãe está em frangalhos.

Enfim, acho bem importante pontuar a importância do puerpério porque foi através do livro da Mariana (sim, me sinto íntima) que eu consegui passar por este momento. Eu o encontrei através da resenha feita pela Isa Kanupp, do Para Beatriz, que é excelente!

Embora o livro tenha sido escrito quando a Estela (filha da Mariana) já tinha 7 anos, ele aborda os primeiros dois anos após o nascimento. A autora analisa o contexto social da maternidade: como ele era vivido antigamente e como o fazemos agora. A forma como criar filhos tem se tornando cada vez mais uma experiência solitária. Além disso, a expectativa das mulheres das gerações passadas era a de se tornar mãe. De alguma forma, maternar era o objetivo social das mulheres. E, hoje, espera-se que as mulheres estudem, construam uma carreira profissional, enquanto que não há estímulos para que a mulher possa se dedicar ao cuidado dos filhos sem prejuízo das outras esferas. Ao mesmo tempo, os homens continuam a sua vida pós nascimento com poucas alterações em relação à vida sem filhos.


Há, inclusive, um trecho do livro que me marcou muito em que ela conta como se sentia injustiçada pela sua vida ter mudado tanto enquanto que o marido continuava a sair lindo e cheiroso para o trabalho. Ah, como me identifiquei com isso!!!



Mariana aborda, então o contexto social, a expectativa que se coloca sobre as mães, o parto, a amamentação, o desmame, o casamento e, ainda, um visão psicanalítica sobre o assunto. Para mim, foi uma porta de entrada para a literatura existente sobre a maternidade. É um relato sincero em um discurso que parece uma conversa de amigas, de mãe para mãe.

Certa vez, emprestei este livro a uma amiga que, ao final da leitura, disse que apesar de ter gostado muito, sentiu muita culpabilização. Ora, era assim que eu me sentia. Eu, que nunca tinha pesquisado a fundo sobre maternidade, trazia a ideia do senso comum: que mulheres sabem ser mães, que sempre sabem o que é o melhor para o bebê e que a maternidade é uma fonte inesgotável de felicidade. Como não sentir culpa ao não me sentir feliz daquele jeito?

Recomendo muito, não só às mães, mas também aos pais para que possam entender melhor como suas companheiras se sentem; às pessoas que desejam a maternidade/paternidade e também a todo mundo que se interesse pelo tema.


O livro pode ser encontrado aqui.

*Também escrevi uma resenha sobre o livro "Eu não quero (outra) cesárea" aqui.





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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Eu não quero (outra) cesárea - Resenha

"Eu não quero (outra) cesárea" é na verdade uma tese de doutorado que se transformou em livro. E que livro! A autora Luciana Carvalho Fonseca é, além de linguista, ativista pelo parto humanizado, uma combinação que resultou numa brilhante pesquisa que destrincha discursos e as relações de poder permeada por eles. 

Este livro me fez repensar a importância da divulgação de relatos de parto e com ele me encorajei a escrever o meu, que está disponível aqui.

O título do livro já adianta que seu conteúdo aborda basicamente casos de VBAC (Vaginal Birth After Cesarean ou Parto Vaginal Depois de Cesárea.), no entanto, acredito que a leitura é muito enriquecedora também para aquelas pessoas que buscam um parto respeitoso, independente de haver gestação prévia ou da via de parto anterior. Isto porque através da leitura é possível perceber o caminho necessário a se percorrer entre um nascimento guiado por técnicas que priorizam a medicalização em detrimento da mulher e do feto até chegar a conquista do nascimento que ocorre respeitando tempo, escolhas e evidências. Ou seja, estando imersos em um sistema obstétrico que se pauta na medição de tempo e dinheiro, conseguir parir com dignidade é uma luta. E conhecer batalhas vividas por outras mulheres faz com que nossa história possa seguir de maneira mais consciente e preparada.
  


Por se tratar de uma tese de doutorado há capítulos muito técnicos no livro em que se explica a metodologia da pesquisa e o programa utilizado para a Análise Crítica do Discurso. No entanto, a linguagem é bem acessível, possibilitando até mesmo para quem não é da área conseguir entender como se deu o processo de construção deste trabalho.

Primeiramente, o livro aborda o paradoxo entre ser mais benéfica, tanto para mãe quanto para o bebê, a escolha pelo parto normal e o elevado número de cesareanas no Brasil e nos Estados Unidos. Após, a autora analisa os discursos da mídia em relação ao nascimento, seja em obras de ficção como nos noticiários e mesmo no relato de parto de celebridades.
  


É curioso constatar como muito da ideia do senso comum que temos sobre o nascimento provém de como o parto é relatado em novelas e jornais. A crítica do livro é aguçada e inteligente fazendo um convite para o leitor observar esse contexto sob um prisma nunca antes considerado.



Além disso, analisa-se o projeto Cegonha do governo federal que, apesar de parecer uma cartilha que incentiva a adoção de práticas da humanização no SUS, usa a imagem da cegonha que se contrapõe à ideia de que é a mulher protagonista do parto e não de que o bebê seja trazido por algo “místico”, no caso a cegonha:
  


Por fim, há uma análise detalhada de relatos de parto tanto de brasileiras como americanas. A autora destacou as palavras mais usadas nestes textos como: "eu" (consegui, renasci), "bebê", "marido", "doula", "médico" e analisou com muita perspicácia como cada palavra é usada, considerando o contexto específico.

Há de se fazer um recorte de classe nestes relatos! Ao que parece, tratam-se de relatos vindo de mulheres de classe média ou alta. E a autora não se esquece disso:



Fiquei com muita vontade de ver um trabalho parecido mas que envolva pacientes do SUS, de maneira a comprovar a sessão de tortura que milhares de mulheres são submetidas diariamente sob o falacioso discurso de que os procedimentos obstétricos praticados são necessários (quando na verdade são pura violência obstétrica), de que de tão normalizados passaram a ser institucionalizados.


 Para quem se interessa pelo sistema obstétrico, pela forma de se nascer e por relações de poder evidenciadas através do discurso (sim!!! tem Foucault!) é um prato cheio. Recomendo e muito este livro que pode ser encontrado aqui.
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O tal do instinto materno


Então o bebê nasce e vem para os seus braços tão miudinho e tão vulnerável e, de forma quase instantânea, surge a pergunta: o que faço com ele agora? Onde está o tal instinto materno para me ajudar?

Cada vez mais tenho a certeza de que essa história de instinto materno é uma grande bobagem. Nós mulheres não nascemos sabendo ser mãe. Muitas de nós, inclusive, nem desejam a maternidade. Pois é, esse papinho de que o relógio biológico vai tocar para toda mulher e convocá-la a ser mãe é também uma grande furada. A verdade é que quando nossos filhos nascem (e se nascem) nós não sabemos nada. Ainda que tenhamos lido muito, nos preparado, tido experiências com filhos de amigas ou com sobrinhos, a experiência de ter filhos é diferente.

Muitas mulheres se frustram ao ver seu filho pela primeira vez e não sentirem aquele amor avassalador. Eu mesma não senti. Senti que estava em transe, de certa forma eu tinha consciência da grandiosidade do acontecimento que era gestar e dar a luz a uma criança. Mas não era amor. Era um querer estar o tempo todo junto ao bebê lhe protegendo e saciando suas necessidades muito mais numa relação de cuidado do que de amor. O amor foi sendo então construído. À medida que ele é mais ele e menos eu, o amor cresce. À medida que ele vai conquistando autonomia e formando sua própria personalidade, a minha admiração vai crescendo por ver nele algo tão próximo a mim e ao mesmo tempo tão diferente.

Mas e o instinto materno? Talvez ele tenha algo a ver com essa necessidade inicial de proteger. Talvez tenha certa influência da nossa cultura judaico-cristã que manda honrar pai e mãe, afinal é deste mandamento que sai aquela estapafúrdia ideia de que pais acertam mesmo quando erram. "Honrar pai e mãe" é muitas vezes usado para expiar a culpa dos pais. Porque se mães fossem mesmo guiadas por um instinto materno não haveria erro de fato, não haveria traumas nem maus tratos.

No entanto, a despeito de não acreditar que exista um instinto materno, o que eu costumo dizer a “mães frescas” (ainda que eu também seja uma “recém-mãe”) sobre como guiar a maternagem é: se escute! Muito mais importante do que ouvir conselhos alheios é conseguir ouvir o que nós mesmas temos a nos dizer. Explico. A maternidade é uma convocação para olharmos a criança que fomos e os pais que tivemos. A maternidade é uma transformação. E como não fomos as mesmas crianças, nem tivemos os mesmos pais, ela é uma transformação que acontece de maneira diferente para cada um. E não estou dizendo que ela é uma experiência única! Ora, passar um mês no Tibet talvez seja transformador também! A maternidade não é algo único, mas é avassalador.

E por essa transformação ser diferente para cada pessoa na mesma medida que cada criança é um universo em si mesma, não há como existir receita para se criar filhos. Qualquer tipo de cartilha que tente ensinar pais como lidarem com essa experiência está fadada ao fracasso!

Acontece que conseguir se ouvir e deixar reviver a criança que se foi um dia pode ser muito doloroso. Não é à toa que grande parte das pessoas prefere ignorar esse chamado, tapar os ouvidos e abafar o grito que vem de dentro. Mas, muitas vezes, deixar de ouvir a criança que se foi um dia significa também deixar de olhar com olhos empáticos para o próprio filho. E por não acreditar em si mesma, toma-se como inquestionável as recomendações médicas, os conselhos de familiares, os pitacos dos amigos.

E acredito que por não existir o instinto materno é que mães podem ser suficientemente boas* mesmo quando não gestaram, mesmo quando não pariram, e até mesmo quando não são mulheres. O exercício de cuidar de uma criança, chamado de maternagem, convoca o cuidador para um olhar sobre si mesmo e essa introspecção é fundamental para um olhar empático para a criança, para que então se consiga comover pelos chamados que a criança faz ao adulto.


*O conceito de mãe suficientemente boa foi trazido pelo psicanalista Donald Winnicott. Em sua obra existe a ressalva de que este papel pode ser cumprido por outra pessoa que não a mãe biológica e muitas vezes utiliza o termo "cuidador". Contudo, é importante ressaltar que dentro do nosso contexto social, inclusive dentro do contexto brasileiro, o papel do cuidado é delegado quase que exclusivamente às mães. A Ligia Moreiras Sena, do blog Cientista que virou Mãe, aborda de forma muito contundente essa realidade, a qual pode ser vista, por exemplo, neste excelente texto.
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terça-feira, 30 de junho de 2015

Relato de Parto (41 + 1): Entendendo violências

Relatar o parto, além de ressignificar os acontecimentos vividos, é também uma forma de tornar acessíveis as reais circunstâncias do nascimento, desmistificando-o e apresentando um ponto de vista de experiência.

Eu só consegui relatar o meu parto dois anos após o seu acontecimento. E poder por em palavras as angústias vividas foi libertador. E, somente agora, quase dois anos e meio depois, é que consigo fazer o relato em forma de texto. Portanto, já adianto que este não é um daqueles relatos que o final é lindo e acontece como o esperado.

·         O pré-natal
Assim que me descobri grávida, eu já tinha certeza sobre qual a via de nascimento que desejava. Para mim, ser a protagonista deste momento era muito importante. Mesmo vindo de uma família que a última geração de mulheres não pariu e tendo um círculo de amigas com poucas mães (em que quase todas optaram pela cesárea), ainda assim, resolvi buscar informação em busca de um parto normal.

E era só isso. Um parto normal. Acreditava que parir por si só já era um ato revolucionário. Comecei a ir a um GO indicado por uma amiga. Logo na primeira consulta ele me garantiu que poderíamos tentar um parto normal, apesar da minha idade. Ele afirmou que como eu tinha 27 anos, poderia ser que não tivesse dilatação. Hoje, vejo que essa afirmação é tão absurda que eu deveria ter saído correndo de lá na mesma hora. Mas naquela época, eu só fiquei desconfiada. Então, por conta disso, resolvi iniciar o pré-natal também pelo SUS, embora ficasse arrepiada de pensar nos inúmeros relatos de violência obstétrica que se passam na rede pública. Segui assim, com dois acompanhamentos de pré-natal por um bom tempo.

Conforme o tempo ia passando, comecei a perceber que todas as pacientes daquele GO haviam passado por uma cesárea. A secretária chegou a me dizer que acreditava que a taxa de cesárea dele girava em torno de 95%. Mas quando eu perguntava àquelas mulheres o motivo da cirurgia, a resposta nunca era uma escolha delas. Sempre havia alguma indicação médica. Parecia até que todas as indicações reais de cesárea (que pela OMS não ultrapassa os 15%) eram ironicamente pacientes daquele médico. Além disso, quando perguntava a ele sobre os partos normais que ele havia assistido, todos pareciam ser realizados às pressas. Ou seja, pareciam ser aqueles bebês que não esperam por uma cesárea, o chamado “parto quiabo”: nasce escorregando.

Foi mais ou menos nesta época, com uns 4/5 meses de gestação, que eu resolvi parar de ir às consultas do SUS. Ficava muito insegura de estar à mercê da equipe plantonista. Mas também não estava confiante em relação àquele GO do plano. Procurei, então, um GO que me atendia antes da gravidez. Mas para o meu desespero, apenas na consulta ele me informou que tinha optado em atender somente ginecologia e não assistia mais partos. Sai de lá com três números de colegas indicados por ele. Dois deles tinham consulta disponível apenas para dali a 3/4 meses, o que ficava inviável para mim. Fui então à colega que restou.

A médica atendia pelo plano, mas a primeira consulta era particular. Mesmo assim, resolvi tentar. Gostei muito porque senti que com ela era possível ter um parto normal. E era isso que me importava na época, não tinha noção que mais importante do que encontrar um profissional que não te induza à cesárea, é buscar por aqueles que respeitem os desejos e o tempo da paciente. Ou seja, que respeite o protagonismo da mulher e não utilize de intervenções desnecessárias que só fazem acelerar o trabalho de parto deixando todo o processo mais dolorido e estressante. E, portanto, eu não percebi quão ofensivo foi quando ela me disse que buscava sempre por um parto normal, contudo, aliado à ciência e “não essas coisas de parteira, e parir na água...porque isso é um retrocesso em vista do avanço científico”. (Infelizmente, este também era meu pensamento naquela época. Parir em casa só podia ser coisa de gente maluca.) Eu estava diante de uma profissional que medicaliza o nascimento. Por sorte, me livrei dela quando ao sair do consultório, fui informada pela secretária que o pré-natal era coberto pelo convênio, mas o parto era particular, e o preço bem salgado.

No entanto, ainda que já estivesse procurando outro GO, continuava a ir às consultas do GO “fofo”.  Como se não bastasse todas as evidências de que ele era um médico cesarista, eu ainda não estava convencida. Mas, neste momento, eu começava a entender o que eram as intervenções desnecessárias e perguntei a ele sobre a episiotomia. E foi aquela resposta que me fez decidir a nunca mais voltar lá. Ele me garantiu que episiotomia era um procedimento necessário e de rotina.

Já no meio da gravidez, conheci o obstetra que me acompanhou no dia do nascimento. Sentia confiança nele e sabia que com ele o meu desejo por um parto normal seria respeitado.
Foi então que um acontecimento burocrático minou as minhas chances de conseguir um parto normal.

Minha DPP era para o dia 21/01. Eu acreditava que o nascimento ocorreria antes disso. Era o que todos me falavam. Hoje eu vejo o porquê. Todos que eu conhecia tinham experiência de cesárea eletiva ou de partos rápidos. Por conta desse elevado número de cirurgias, atualmente, é muito difícil ver alguma gravidez que passe de 40 semanas, embora hoje eu saiba que para primíparas é muito normal que o trabalho de parto só inicie após este prazo.

No começo de janeiro meu marido recebeu uma proposta irrecusável de emprego. Essa mudança acarretaria também na mudança de plano de saúde, o qual eu era sua dependente. Liguei para o plano antigo e fui informada que ele seria válido apenas até o dia 31/01. Segundo informações que obtive na época, essa era a data limite para a alta no hospital. Portanto, como a internação é de no mínimo dois dias, o Daniel teria que nascer até o dia 29/01. Nesta data, eu estaria com 41 semanas e 1 dia. Como disse, acreditava que esse prazo era suficiente para eu entrar em trabalho de parto. Ainda assim, para me garantir, entrei em contato com o novo plano. Porem, como a contratação ainda não tinha sido formalizada, eu não possuía o número da carteirinha do plano e, assim, não souberam me informar se haveria exigibilidade de carência para cobertura de parto ou não. (Hoje eu sei que planos empresariais realizados por empresas com mais de 30 funcionários não podem exigir carência, ou seja, eu poderia ter esperado mais tempo que estaria segurada pelo novo plano, mas esta informação me faltou).

Devido a esta nova circunstância, eu tinha um novo prazo para entrar em TP: 29/01. O tempo foi passando e não tinha nenhum sinal que entraria em TP. Barriga continuava super alta. Tomei vários chás, andava muito todos os dias e nada. Na segunda feira, dia 28/01, fui aos prantos ao que sabia ser a ultima consulta do pré-natal. Sai de lá com o pedido de internação para tentar uma indução.

·         O nascimento
Dei entrada no hospital no final da noite. Sempre respondendo para a atendente que “Não moça. Eu não sei o horário da cirurgia. Eu vou fazer uma indução”.

Por volta de 1h, o médico plantonista chegou para iniciar a indução por misoprostol. Pouco menos de uma hora depois, eu já começava a sentir as contrações. Mesmo muito ansiosa, consegui cochilar depois disso. Acordei novamente, às 5h e as contrações já estavam começando a ficar rítmicas, com intervalo de 8/8min. Continuei deitada até que a dor ficou mais intensa. Meu marido acordou também e fomos andar pela maternidade. Eu ainda não gritava, mas apenas pelo meu semblante de dor, percebia que chamava a atenção das enfermeiras que me olhavam como se nunca houvessem antes visto uma mulher em trabalho de parto.

Já às 7h, trouxeram o café da manhã, mas eu não consegui comer nada devido a dores. Poucos minutos depois, o meu GO chegou ao quarto. Auscultou o coração do bebê e percebeu uma disritmia. Pediu para que me preparassem para ser levada ao centro obstétrico. Coloquei a camisola e fui levada de cadeira de rodas, embora tivesse plenas condições de ir andando.

No CO, as contrações já não tinham mais intervalo. Vinham uma após a outra e pude perceber que algo não estava correndo bem. O médico chamou a enfermeira e pediu para que ela trouxesse um medicamento que cortaria o efeito da indução. Ela, na minha frente, respondeu que aquele remédio não era para este fim. Ele insistiu dizendo que sabia o que estava fazendo. Ao que ela respondeu que eles não tinham aquele medicamento no hospital e ela deveria busca-lo em uma farmácia. Após ela sair, ele comentou comigo que as enfermeiras de hospital privado não estão acostumadas com induções de parto e desconhecem o procedimento.

Cerca de 30 minutos depois, ela voltou com a medicação e após algum tempo comecei a sentir novamente intervalo entre as contrações. O GO me adiantou que como eu estava sem dilatação, o TP ainda poderia durar cerca de 8 horas. Em vista disso, ele disse que teria que visitar outras pacientes e que voltaria em cerca de 1 hora.

Neste momento, as dores das contrações já eram suportáveis. Chamei a enfermeira e pedi para voltar ao quarto. Ora, eu estava numa sala de no máximo 4m² e sozinha! Com a negativa, pedi para que chamassem meu marido. Apesar de lei federal que garante a presença de acompanhante, esse pedido também me foi negado. Então, pedi para comer e tomar água. E, novamente, não fui atendida.

Não é de se espantar que diante deste quadro, sozinha, em TP, sem comer, tomar água ou poder me movimentar, comecei a ficar muito nervosa e ansiosa.
Foi quando, logo depois, meu marido conseguiu entrar no CO após muito brigar com a enfermeira. Neste momento, as contrações já estavam ficando mais fortes e com as dores ouvi um PLOC. Já sabia o que aquilo significava. Sabia que minha bolsa tinha rompido e fui ao banheiro.

O único banheiro do CO era sujo e escuro. Mas, ainda assim, percebi a cor esverdeada do líquido amniótico. Chamei a enfermeira e informei a ela que minha bolsa havia rompido com a presença de mecônio. Ela pediu para que me deitasse e me disse que eu estava enganada: “você está sequinha”.

No mesmo momento, o GO retornou e eu o avisei que não obstante a opinião da enfermeira, eu sabia que a bolsa tinha estourado com mecônio. Neste momento, as dores já estavam insuportáveis. Ele pediu para que eu me deitasse e fez um exame de toque super dolorido. Ele confirmou a presença de mecônio e constatou que eu ainda não tinha qualquer dilatação. Informou a mim e meu marido que aquele prazo de 8 horas ainda se mantinha e perguntou qual seria nossa decisão.

Neste momento eu já tinha consciência que a indução de parto não foi bem sucedida. Foi ela que levou ao início de sofrimento fetal, apontado pela alteração nos batimentos cardíacos, e que tinha levado à presença de mecônio na bolsa. Fora isso, as dores estavam insuportáveis e eu não tinha nem começado a dilatar. A decisão pela cesárea quedou inevitável.

Com isso, o médico saiu para se preparar para a cirurgia e eu comecei a perceber o desespero das enfermeiras. Elas cochichavam, como se eu não estivesse presente. Eu urrava de dor e uma delas me disse repetidas vezes: “Ué? Mas você não queria parto normal?” Ninguém é capaz de imaginar o ódio que sinto dessa mulher até hoje.

Me levaram à sala de cirurgia. A anestesista insistia para que eu me sentasse e ficasse com as costas curvadas. Mas eu, novamente, não tinha mais intervalo entre as contrações, e ficar sentada era uma tortura. Depois de algumas tentativas, ela conseguiu aplicar a anestesia e eu fiquei chapadíssima. Apesar da tristeza por saber que eu não teria um PN, fiquei feliz em não sentir mais aquela dor.

Alguns minutos depois, o médico entra calmamente na sala de cirurgia. Algumas enfermeiras tentam o apressar lembrando que havia mecônio na bolsa. Hoje eu percebo o completo despreparo daquelas profissionais.

A cirurgia começou e eu não estava participando de nada. A mim, só restou ficar olhando o relógio pendurado na parede da sala. 11h45 foi quando percebi que o Daniel foi erguido pelo médico. Ele não chorou. Foi aspirado assim que nasceu. Levaram-no e logo trouxeram enrolado em panos do hospital para que eu pudesse vê-lo. Sim, apenas ver. Neste momento eu me dei conta que estava amarrada, na mesma posição da crucificação. Outro procedimento totalmente desnecessário. Por conta das amarras, não pude tocar meu filho. Fiquei tão atônita que também não consegui falar com ele. Pela foto, é possível perceber tamanha insensibilidade da enfermeira. No momento em que eu via meu filho pela primeira vez, e percebia que estava amarrada, a enfermeira aplicava alguma injeção em meu braço.



Ele foi novamente levado e passou por todas aquelas intervenções hospitalares de praxe. Meu marido filmou tudo. Hoje, quando revejo as imagens, assemelho aquilo a uma sessão de tortura. Aplicaram-no colírio de nitrato de prata, mesmo eu tendo feito pré-natal com o mesmo médico que me operou e comprovado que eu não tinha nenhuma doença venérea. Realizaram a medição de comprimento, mesmo ele ainda estando com as pernas na mesma posição que ficara por nove meses. No vídeo, é possível observar que ela puxa sua perna repetidas vezes, o que lhe causa um choro alto e sentido.



Quando o médico terminou a cirurgia, veio falar comigo, e eu lhe perguntei primeiramente se caso engravidasse de novo, se poderia ter um parto normal. Ele respondeu afirmativamente. Depois lhe perguntei se aquela dor insuportável era assim mesmo, ele apenas confirmou. Hoje sei que a indução de parto, seja ela por misoprostol ou ocitocina, provocam dores muito mais intensas do que aquelas contrações causadas por hormônios naturais. Além disso, as dores costumam aumentar depois que a bolsa estoura já em TP.

Após a cirurgia, eu fiquei cerca de 2 horas numa sala escura junto de outras duas mulheres. Tentava mexer os dedos do meu pé a todo custo para poder finalmente ir para o quarto. Quando consegui, chamei a enfermeira que me disse que não podia me levar naquele momento, pois era hora de almoço e estava sozinha no plantão. Esperei mais alguns minutos e fiquei surpresa quando cheguei ao quarto e o Daniel não estava lá. Meu marido foi quem me informou que ele estava numa incubadora recebendo oxigênio. Ele nasceu com apgar 8/10. 8/10!!! Seria mesmo necessário deixá-lo por mais de 4 horas em uma incubadora??? Eu só fui poder tocar no meu filho depois de 4 horas após o nascimento. Esse período me pareceu uma eternidade.

Em sua carteira, que recebemos após a alta, constou 3,520 kg, 50cm e 40 semanas. Apesar de eu estar com 41 + 1 semanas de gestação, a idade dele foi de 40 semanas. É muito comum essa disparidade, e pode chegar até duas (às vezes 3) semanas de diferença.

Segundo o GO, muito provavelmente a minha hiperreação à indução se deu pelo fato de que eu entraria em TP naturalmente naquela madrugada. Não ter podido esperar e ter passado por toda essa situação de violência obstétrica afetou em muito a minha maternagem nos primeiros meses de vida do meu filho.

Não é o fato de ter passado por uma cesárea. E sim por ter durante toda a gestação buscado por profissionais que me assegurassem um direito de escolha e ainda assim, ter sido violentada. Fico muito grata pela amamentação ter se estabelecido de uma maneira tão fácil e indolor que me garantiu um vínculo forte e segurança durante o puerpério.

O dia do nascimento do meu filho foi também um dia que me senti muito violentada e eu não desejo isso a ninguém.

Para quem tem condições de arcar com o custo, recomendo muito a contratação de uma doula. Esta profissional tem contatos, conhece a realidade do sistema obstétrico, sabe nomear e apontar violência obstétrica. Ainda que o parto aconteça no SUS, a sua presença pode ser fundamental para se evitar procedimentos desnecessários.

Gostei muito dessas dicas, mas é necessário que se aponte que esse “empoderamento” é algo inacessível amuitas mulheres. E quando estamos pensando no coletivo, é necessário falar sobre as estruturas que mantem este sistema falido e não adestrar a mulher para que consiga driblá-lo.

*Agradeço à Letícia pelo acolhimento quando os sentimentos já não suportavam a ausência de palavras.

** A indução com misoprostol pode acarretar em: "O misoprostol tem como efeito colateral excesso de contrações uterinas (taquissistolia), hipertonia uterina (contração que não passa), náuseas e diarreia. Este excesso de contrações uterinas pode levar a sofrimento fetal e por isso toda indução com misoprostol deve ser adequadamente monitorizada e deve ser realizada em ambiente hospitalar. A presença de cesárea prévia é uma contra-indicação relativa ao uso do misoprostol." Fonte aqui.


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