quinta-feira, 16 de abril de 2015

Por que a infância se torna pejorativa?

Há um tempo me chamaram a atenção para o uso do termo "infantil" de forma pejorativa. Sabe quando nos deparamos com alguém imaturo e logo dizemos: "parece criança!" ou "quanta infantilidade"? O mesmo se repete quando associamos a adolescência com comportamentos inconsequentes.
Pois então, associar a infância e a adolescência a um comportamento indesejável diz muita coisa à respeito do que realmente pensamos sobre essas fases. 

Foi então que hoje tive a sorte de ler esse texto lindo e esclarecedor da Ludmila Franca. Respeitar a criança e o adolescente significa também compreender a importância da vivência dessas fases da vida.


"Até ontem, eu chamava adultos imbecilizados, irresponsáveis, arrogantes, fúteis, superficiais e narcisistas de "eternos adolescentes". Era uma enorme injustiça da minha parte, como também um dia chamei de "infantil" esses comportamentos. É injusto associar a imaturidade natural e inerente aos processos juvenis (anímicos e biológicos) ao comportamento imaturo de quem já viveu todos estes processos de amadurecimento e opta por uma vida sem sentido e fútil dentro de panelinhas e farras sem fim. Chamar de "infantil" ou "adolescente" gente adulta que não incorpora seu tempo é uma forma de adultismo. São a infância e a adolescência similares ao comportamento deplorável do adulto? É assim que adultizamos nossos filhos, exigindo deles "maturidade" no momento em que eles ainda não dispõem sequer de estrutura biológica para tanto. É tachar seus comportamentos de forma negativa, porque são tomados pela linha de conta da perspectiva do adulto. Não. Adulto fútil é fútil. Adulto egoísta é egoísta. Adulto imbecil é imbecil. Não é "infantil" nem "adolescente", pois os comportamentos, que podem ser deploráveis na perspectiva do adulto, são normais e saudáveis na estrutura de desenvolvimento de crianças e adolescentes. É o adulto que está fora de lugar e de tempo, e não o comportamento do jovem que é "errado". 

Essa deslegitimação adultista produz, para a juventude, o fardo de ter suas condutas medidas pela mesma régua com que se mede as condutas dos adultos. Disso surge, por exemplo, o desejo punitivo e policialesco de reduzir a maioridade penal para 16 anos, impondo responsabilidades adultas bem no meio do processo de desenvolvimento juvenil, como se o jovem já pudesse arcar com o mesmo que um adulto. Também surgem as projeções, que gostam de colocar crianças sérias, vestidas com elegância, sofisticação e requinte, tocando violinos, ouvindo Mozart e discutindo Van Gogh aos 5 anos de idade, que não assistem desenhos animados e outras "infantilidades", mas sim a filmes do Von Trier, que falam 8 idiomas antes de completar 10 anos e que se preparam para fazer vestibular com 16 anos para "orgulhar" seus pais, que dirão: eis aí os meus genes, olha como sou fantástico, olha meu clone! Orgulho, na língua dos pais, é puro narcisismo, que transforma filhos em meros aglomerados de "meus genes", joguetes de frustrações, espelhos onde eu me admiro.

A expressão "eterno adolescente", assim como outrora o "adulto infantil", morreu no meu vocabulário. Breve serei mãe de uma adolescente e espero poder ampara-la neste difícil - porém bonito - momento de crescer e amadurecer, sem julgamentos e intolerância. Apenas amor, paciência, acolhimento e muito (mas muito!) respeito."



Agradeço também à Cristiane Matos que trouxe a reflexão quanto ao uso do termo “infantil” de forma pejorativa.
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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Amamentar em cabines?

A partir do dia 10 de maio deste ano, alguns aeroportos de Nova York passarão a contar com cabines de amamentação similares a esta.



Quando soube da notícia achei tudo muito bizarro, ainda mais vindo dos EUA que é um país conhecido pela reprovação da amamentação em público. A mensagem é clara: amamentação em público não é bem vinda.

Contudo, percebi que em muitas matérias, ou mesmo por comentários de mulheres, fora levantada a questão do respeito à privacidade, que a amamentação precisaria acontecer em um lugar tranquilo respeitando intimidade da mãe e do bebê e que algumas mulheres teriam pudor de amamentar em público. E eu vejo dois grandes problemas neste tipo de argumento. O primeiro é a romantização do ato de amamentar e o outro é o pudor em relação ao corpo.

Amamentar nem sempre é um momento de paz e de intimidade entre mãe e bebê.  Às vezes pode ser uma troca de carinho, pode ser uma refeição, um refresco, um consolo e até mesmo “venha cá criatura e me dê um pouco de sossego”.

Não parece lógico que alguém tenha que se esconder para trocar carinho. Alguém precisa ir a um local reservado para comer, beliscar alguma coisa ou tomar um suco? E um abraço acolhedor, precisa ser feito longe de olhares alheios? E jogar candy crush na fila do pão, seria vergonhoso? Então por que amamentar teria que ser feito em um “lugar reservado”? Por que se associa a tal tranquilidade para amamentar com se afastar de olhares estranhos? Não haveria tranquilidade simplesmente porque há presença de pessoas desconhecidas?

Quem já amamentou em público sabe que não é isso. O ambiente hostil vem dos olhares de reprovação. Das supostas palavras gentis que te oferecem um local “mais reservado” ou mesmo um paninho para cobrir o rosto do bebê. Por que um ato fisiológico que inclusive nos nomeia enquanto mamíferos pode incomodar tanto? E é aí que entra o pudor em amamentar.

O corpo da mulher é sexualizado e objetificado. Ele é bonito enquanto cumpre a sua função de ser erótico. Todo corpo feminino que não esteja dentro dos padrões eróticos ou não esteja cumprindo essa função sofre grande pressão social para que seja escondido. Seja o corpo da mulher gorda que não pode usar roupas justas, ou o corpo cheio de celulites que logo é apontado na praia, o corpo que evidencia que já abrigou outros corpos, ou o corpo que alimenta. Evidência de misoginia. Sim, vivemos em uma sociedade que rechaça todo corpo feminino que não esteja disponível para a erotização. Despe o seio que erotiza e esconde o que alimenta.

Afinal, quando se amamenta, o bebê está à frente do seio. Mostra-se não muito mais que em um decote bem cavado. E não me entendam mal! Seios são bonitos quando amamentam e também quando expostos dentro de uma blusa cavada. Não quero moralizar decote nenhum. Quero apenas que as mulheres possam dispor do seu corpo da forma como bem entenderem: seja para flertar, para obter prazer, para ser funcional, para alimentar.

Há muita diferença?
 

E aqui?
 

Também não vejo muita diferença de exposição aqui:

Ora, se a diferença não é a quantidade do corpo que se mostra, para mim, é evidente que o problema está no objetivo da exposição! O corpo que amamenta está cumprindo função diversa daquele que nossa sociedade machista lhe incumbiu: o de servir ao sexo.


É preciso também falar do manto sagrado que insistem em vestir nas mulheres que se tornam mães. Como se a maternidade andasse de mãos dadas com a castidade. E uma mulher casta não deveria mostrar os seios já que os seios são sempre associados ao sexo.

E isso é uma mentira. Maternidade não significa castidade. Amamentação nem sempre é troca de carinho. É preciso desconstruir esse mito sobre ser mãe!



A amamentação é muito importante tanto para a mãe como para o bebê. Conseguir estabelecer essa relação depende de muitos fatores externos, dentre eles, o apoio. Ter liberdade para poder amamentar a qualquer tempo e lugar fará diferença tanto na qualidade como no tempo de amamentação. Afinal, nenhuma mulher consegue manter essa relação se toda vez que seu filho quiser mamar ela tenha que se esconder. Façamos do ato de amamentar algo tão normal como comer. Ora, e não é isso que mamar, na sua função primária, representa?
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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Frozen: encontrando pelo em ovo

Se você ainda não assistiu ao filme, não termine de ler. Mesmo se não tenha filhos e fique com vergonha de ver um filme infantil, não se reprima! Vale a pena, o filme é bom mesmo. 

Antes do meu filho nascer, eu nunca havia lido um livro duas vezes e não gostava nem um pouco de ver um filme mais de uma vez. Recordo-me de uma amiga que assistia quase todos os dias A viagem de Chihiro. E adorava. A sua filha era enlouquecida por este filme e fazia todo mundo rever e rever quase que em um looping eterno.

Então, em um belo dia resolvemos mostrar o filme Frozen ao meu filho e ele se apaixonou, assim como eu. Não é apenas porque o desenho é bonito, ou porque a trilha sonora é lindíssima, e sim porque a história é muito boa. E quem diria que logo eu, que apenas tinha repetido com prazer O clube da luta, agora estou aqui no looping eterno com o Frozen.

Ok, Frozen não é assim tão revolucionário. Continua com as mesmas princesas lindas, magras e loiras (ou ruivas). O filme chega a brincar com a aparência da personagem Anna quando ela aparece toda descabela e babando enquanto dorme. Mas mesmo assim, continuam sendo princesas dentro do padrão de beleza.

Outra questão bem problemática do filme é o tratamento dado à Elsa pelos pais após descobrirem a força do poder do congelamento que ela possui. Quando criança, Elsa se divertia com essa aptidão até que, por acidente, atinge sua irmã Anna enquanto brincavam. A partir deste fato, Elsa é mantida presa em seu quarto, ainda que por sua vontade, pois acreditava que se afastando e reprimindo seu poder, estaria protegendo todos a seu redor. Então, durante toda a sua infância e adolescência, deixa de manter contato com o mundo exterior, excluindo do seu convívio até mesmo sua irmã. Os pais acabam morrendo em um acidente e, ao completar 18 anos, é coroada a rainha de Arendelle.

Elsa sempre foi ensinada a reprimir seu poder e isto fica muito bem ilustrado quando ganha luvas de presente do pai - estas luvas conseguiriam inibir a força do congelamento. É uma metáfora muito clara de como precisamos usar artifícios para esconder quem realmente somos. 

Ao meu ver, o poder de congelamento de Elsa representa nossos sentimentos ruins ou mesmo alguma característica que possa chocar a sociedade. Desde pequenos somos ensinados a reprimir isso. Seja em um inocente "não foi nada" quando a criança chora ao cair, até em querer moldar deliberadamente a personalidade dos filhos. Há um livro* sensacional que trata justamente das consequências dessa repreensão dos sentimentos desde cedo, mas isso será assunto para outro post.

A música tema do filme, lerigoooo, lerigoooo, ilustra muito bem essa angústia em não se poder ser quem realmente é:

Don't let them in, don't let them see                                     Não os deixe entrar, não os deixe ver
Be the good girl you always have to be              Seja a boa menina que você sempre deve ser
Conceal, don't feel, don't let them know               Oculte, não sinta, não deixe que eles saibam
Well, now they know                                                                                       Bem, agora eles sabem

Let it go, let it go                                                                                             Deixa pra lá, deixa pra lá
Can't hold it back anymore                                                                         Não posso esconder mais
Let it go, let it go                                                                                             Deixa pra lá, deixa pra lá
Turn away and slam the door                                                                        Afaste-se e bata a porta
I don't care what they're going to say                                   Não me importa o que eles vão dizer
Let the storm rage on                                                                         Deixe a tempestade se alastrar
The cold never bothered me anyway                                    O frio nunca me incomodou mesmo

Elsa, então, mesmo se sentindo livre ao viver sozinha, percebe que ainda não está feliz. E é aí que entra a importância de sua irmã no filme.

Anna é a irmã mais nova. Após o acidente provocado por Elsa, que motivou o isolamento, Anna passa a viver sozinha. Pede insistentemente que sua irmã volte a brincar com ela e, por ser uma princesa, também deve ficar dentro de seu castelo, privada do convívio com outras crianças. (Não entendo muito bem o motivo disso, só sei que é assim).

Até que chega o grande dia da coroação e Anna fica em êxtase ao saber que irá participar de uma festa. Contudo, fica bem claro que seu grande desejo é encontrar o príncipe encantado. Não a recrimino. Afinal, passou a vida toda sozinha, falando com quadros, natural que quisesse uma companhia. E como por mágica do destino, encontra nessa festa o seu suposto grande amor. Ao contar a novidade para Elsa, é duramente recriminada. Ora, ninguém pode querer se casar com alguém que acabou de conhecer! E ploft, a Disney pisa em cima do mito do amor à primeira vista. Cheguei a emocionar. Depois, quando conhece Christopher, novamente reforça-se a ideia de que o amor é uma construção e não uma reação química provocada por feromônios. O nome disso é paixão, diria Rita Lee.

E é nesse momento que começa a ficar claro o cunho feminista do filme. Ele, inclusive, passa com louvor e estrelinhas no teste de Bechdel. É evidente que a Disney se aproveitou de uma onda pop que vem usando e abusando do feminismo. Claro que os fins são comerciais. Mas eu acho é bom. Se há um lugar que o feminismo ainda é raro e que se faz muito necessário, é na infância. Que se fale mais sobre amor entre mulheres, que se fale tanto sobre mulheres que elas sejam também representadas por personagens de diversas etnias, que sejam negras, que sejam gordas, que sejam também pobres! Porque exaltar mulheres brancas, lindas, magras e rycaaaaahs é bom, já que é preciso que a mulher seja mais representada, todavia precisamos que todas sejam representadas!

Carolina, obrigada! Sempre.

No entanto, é quando se desvenda o ato de amor verdadeiro que não resta mais dúvidas sobre a inserção de premissas feministas. Anna descobre que o amor verdadeiro é aquele que ela sente pela irmã, e assim salva a vida de ambas. Se bem que as duas passaram a infância inteira separadas e Anna acreditou sempre que esse afastamento era puro desprezo de sua irmã. Ou seja, elas não tiveram tanto tempo juntas para que esse amor se construísse... mas enfim, é um filme e certas incoerências a gente deixa passar.

O que não dá para deixar passar são várias mancadas da produção de dublagem. Se você ainda não viu a versão original, mesmo que seja legendada, corre o risco de ter perdido grandes sacadas. Além das músicas, que são muito bonitas na versão original, há alguns exemplos de comida de bola da dublagem. Um deles é quando Anna e Christopher encontram o castelo de gelo construído por Elsa. A construção é tão grandiosa e deslumbrante que Christopher se emociona e confessa que está com vontade de chorar. Na versão original, Anna responde algo como "Vá em frente, não te julgarei". Ao passo que na versão dublada a resposta é completamente contrária ao que o filme quis passar: "Pode chorar! Não conto para ninguém." Ou seja, quem produziu a dublagem não entendeu que a mensagem era justamente dizer que os homens também podem chorar sem julgamento, que não precisam reprimir seus sentimentos. Mas a dublagem apenas confirma que homens só podem chorar escondido e, se alguém os vir, será um segredo. Lamentável.

Mas a minha grande piração ainda está por vir. Se você achou que até agora eu estou procurando pelo em ovo, espere para ler minha teoria de mensagem subliminar.

Só quem tem mais de 30 irá se lembrar da polêmica mensagem subliminar do Rei Leão


Olaf é o nome do boneco de neve criado pelas irmãs quando elas ainda eram crianças. Ele ressurge na história quando Elsa o recria juntamente com o castelo. Olaf é até um nome comum nos países nórdicos, porém, em se tratando de roteiro de um filme com investimento tão expressivo, nada é por acaso.

OLAF é o espelho de FALO. Ou seja, quando se lê umas das palavras de trás para frente, tem-se a outra. Falo vem do grego phallós, que se originou do latim phallus. Ainda que a grafia não seja a mesma, a fonética é muito parecida.

O que eu achei curioso neste nome é que um filme que traz princípios feministas de forma tão evidente conte com um personagem que dentre tantos nomes foi se chamar falo ao contrário. Note-se que Olaf foi criado pela Elsa e ganhou sua grande cenoura das mãos de Anna. Ele é um personagem ingênuo (o grande sonho deste boneco de neve é viver no verão, como não amar?), chega até a ser bobo, que não tem grande importância no enredo da história, mas muito querido pelas duas protagonistas do filme.

A minha interpretação deste personagem é a de que ele é uma brincadeira com a teoria da inveja do falo, teoria a qual sugere que o desenvolvimento de gênero e sexual das mulheres é determinado pela percepção da ausência do pênis. Algo como um desejo por ter nascido homem.

Ora, o filme fala de duas mulheres órfãs, sendo que a uma delas incumbiu-se a tarefa de governar um reino, duas mulheres que se amam verdadeiramente. Entre elas, está o bobinho Olaf, com a missão de diverti-las. Não parece ser coincidência, não é?

O teste de Bechdel, que eu inclusive já citei aqui, compreende três regras: que o filme tenha pelo menos duas mulheres, que elas conversem entre si, e que essa conversa não seja sobre homens. É realmente muito difícil encontrar um filme que passe neste teste. E a grande maioria dos filmes da Disney, se não todos, traz as suas heroínas sempre com um grande objetivo: encontrar marido. E, de certa forma, ainda é assim que a sociedade vê as mulheres: bem sucedidas são aquelas que conseguiram se casar. Experimente passar dos trinta e continuar solteira. Pois é.

Sim, nós mulheres temos outras ambições que não a de se casar. Nós conversamos entre nós sobre diversos assuntos que não envolvam homens. Lidem com isso.


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EDITADO EM 24/12/2015:

Eu tenho uma amiga que escreve coisas lindas e que frequentemente me faz pensar sobre diversas questões. E ela escreveu sobre esse filme com a precisão e ternura que lhe é peculiar. E eu achei tão bonito que pedi permissão à Ludmila Franca para incluir sua visão sobre o Frozen aqui também:

"Duas mulheres que têm um brinquedo chamado Olaf (que, de trás pra frente, é Falo), cujo nariz de cenoura (super fálico) é dado pela sua dona. Duas mulheres sozinhas no mundo, entregues à própria sorte, uma delas absolutamente carente e canalizando sua carência como 90% das mulheres, sonhando com o amor de um homem para ser feliz. Porque sem homem a vida não tem sentido, assim nos dizem todo instante. A outra, em desequilíbrio de sua força, por... carência. Cada dia mais fria e acreditando piamente que merece a solidão no castelo que ela mesma construiu para se proteger do mundo. Um príncipe, que promete o mundo, como tantos homens... Uma mulher que acredita que só pode sair de casa se for para casar. Que só pode ser amada se for escolhida para esposa. E a outra, que impede e diz: não se casa com pessoas que mal conhecemos. O que você sabe sobre amor verdadeiro?
Um filme que dá uma reviravolta na cabeça da gente, formatada em torno da ideia de que tudo depende de achar um homem ou de morrer sozinha, sem amor. Um filme que fala que o amor verdadeiro pode ser o amor entre duas irmãs. O amor que salva. O amor que liberta Anna da carência e a coloca para atravessar sua classe social e namorar o proletário. O amor que dá a Elsa seu eixo e a permite realizar a potência de sua magia para ser uma soberana plena de si e generosa para seu povo. Uma irmã que deixa o cara no meio do caminho e vai salvar sua irmã, mesmo que isto custe sua própria vida. Uma outra irmã que descobre que é o amor, e não a solidão, o destino das mulheres poderosas, duas mulheres que brincam com um Olaf/Falo, bastando a si mesmas, se salvando, cuidando de si. Uma Anna que não desiste do amor de sua irmã jamais. Uma Elsa que não permite sua irmã cair na armadilha de casar com um príncipe e ser infeliz. Uma Anna que olha para além de sua classe e descobre a nobreza no proletário sem modos. Uma Elsa que aprende a cuidar e ser cuidada, que aprende que o amor da sua irmã é sua salvação. Uma Anna que aprende que o amor de que ela tanto precisa é da sua irmã e que ela não precisa de príncipe nenhum. Uma Elsa que se casa consigo mesma, mas descobre que a solidão nunca foi a resposta para que ela fosse a melhor versão de si mesma; que seu poder não é para gerar medo, mas sim alegria ("o medo é seu maior inimigo", diz o filme no início). Ah... Eu amo essas duas."





*Não julgue esse livro pelo título. A tradução foi muito infeliz. Não é sobre crianças super dotadas, tampouco culpabiliza os pais por traumas impingidos a seus filhos.

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segunda-feira, 30 de março de 2015

Da autonomia e protagonismo da mulher: repensando conceitos

Foto de Renata Penna - Projeto Bonita é Mãe
(http://bonitaeamae.tumblr.com/)
Na semana passada postei um texto que buscava demonstrar a importância do feminismo para o movimento da humanização do parto. Contudo, alguns debates me fizeram mudar de ideia em relação a esta frase:

“Até por isso, uma cirurgia cesárea pode ocorrer de forma muito respeitosa, mas nunca será humanizada, visto que o sujeito ativo da cirurgia é o médico, sendo dele o protagonismo pelo ato.”


O primeiro debate que me chamou atenção para o equívoco desta frase, surgiu de uma postagem da Dra. Melania Amorim em que defendia que poderia haver atendimento humanizado em uma cesárea.

A partir dessa discussão, pedi ajuda às amigas ativistas para entender como isso era possível e o que obtive foi uma troca de ideias bastante rica que acabou por me fazer reconsiderar a frase acima. Disseram até que o assunto era tão vasto que pesquisar sobre a humanização poderia levar anos! Alguns dias depois, e o post está feito. Então, a pesquisa foi superficial, mas nem por isso, o texto ficou curto. O assunto é bem complexo e, por isso, peço aqui paciência e tempo pra chegar até o final :-P .

Primeiramente, é importante frisar que o conceito de humanização da saúde e humanização do parto são conceitos distintos, embora este tenha se originado daquele. Ainda, o movimento da humanização da saúde já tem uma longa história e é bastante conhecido dos profissionais da saúde.

Neste debate, foi-me sugerido a leitura de um estudo sobre a humanização da saúde, que pode ser lido da íntegra aqui. E alguns trechos considero importantes serem destacados:
  
"DESLANDES (2004), em um estudo que analisa o discurso do Ministério da Saúde sobre a proposta de humanização na assistência à saúde, em nosso meio, destaca que o termo humanização, como tem sido empregado, carece de uma definição mais clara e tem significado um amplo conjunto de iniciativas que abrange:
- A assistência que valoriza a qualidade do cuidado do ponto de vista técnico;
- O reconhecimento dos direitos, da subjetividade e da cultura do paciente;
- O valor do profissional da saúde.
Portanto, as ideias centrais de humanização do atendimento na saúde são as de: oposição à violência, compreendida como a negação do outro, em sua humanidade, necessidade de oferta de atendimento de qualidade, articulação dos avanços tecnológicos com acolhimento, melhorias nas condições de trabalho do profissional e ampliação do processo de comunicação."

(...)

"MINAYO (2004) analisa o mesmo texto de Deslandes recordando a história das correntes filosóficas humanistas e esclarecendo que o humanismo laico e o cristão possuem três aspectos fundamentais que devem ser levados em consideração quando se discute humanização em saúde:
1) A centralidade do sujeito em intersubjetividade. Neste caso, o profissional de saúde deve reconhecer o outro em sua humanidade, ou seja, indivíduo com capacidade de pensar, agir, interagir, ter lógica, manifestar-se e expressar intencionalidade.
2) O ser humano como síntese de seus atos. Observa que o processo de humanização transcende os esquemas, funcionalista e mecanicista, que são traçados para “racionalizar sua implantação”. O existencialismo prega que um projeto só “é” ou “está em ação” quando envolve vários sujeitos, nos quais se acredita e se leva em conta “suas verdades em ação.”
3) O modelo médico continua sendo de formação tecnicista e instrumental. Nele, a formação dos profissionais da saúde supervaloriza o positivismo e as teorias mecanicistas que tratam o ser doente como organismo formado por um dispositivo bioquímico e funcional. No fundo, percebe-se, por parte do profissional, um menosprezo pela liberdade e autodeterminação do paciente."


Pela leitura destes trechos, pode-se inferir que por humanização da saúde se entende um modelo de atendimento mais focado na subjetividade do paciente e menos em teorias mecanicistas. O termo humanizar se aplica a um conjunto de práticas em saúde (e reflexões acerca dessas práticas) que se propõe a fazer frente a uma assistência mecanizada e automatizada. Quem se interessar sobre humanização na área da saúde, recomendo muito a leitura completa do arquivo linkado acima. 

Esses princípios também estão presentes na definição de humanização do parto, contudo, este conceito é mais específico.

A Dra. Melania Amorim conceitua a humanização do parto da seguinte maneira:

"Humanização do parto consiste em um tripé: a retomada do protagonismo feminino no PARTO (e por isso não se fala na cesárea, que nem é parto nem tem protagonismo), a visão do parto como um evento de múltiplas dimensões biopsicossociais e espirituais (não como ato médico) que deve ser atendido pela equipe transdisciplinar, e uma sólida vinculação com a medicina baseada em evidências."

Neste mesmo sentido, é a definição encontrada na página 112 do caderno do HumanizaSUS, disponível aqui:

Esse modelo pretende oferecer interlocução criativa entre paradigmas conflitantes. Se o “naturalismo” nos aprisiona nos ditames inexoráveis de uma natureza imprevisível, a “tecnocracia” também nos encarcera sob o domínio de uma tecnologia despersonalizante, coisificante e objetualizante, que se opõe às aspirações humanas de liberdade e autonomia. Portanto, a humanização do nascimento apresenta proposta baseada nesse tripé conceitual:
1. Protagonismo restituído à mulher, como premissa fundamental, sem o qual se estaria apenas “sofisticando a tutela” milenarmente imposta pelo patriarcado.
2. Visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “processo biológico” e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessidades atendidas.
3. Vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o movimento de “Humanização do Nascimento” é fundamentado na razão e na pesquisa científica, e não em crenças religiosas, ideias místicas ou pressupostos fantasiosos.


Antes de tudo, uma grande diferenciação entre esses conceitos é que a humanização do parto trabalha com um evento fisiológico, ou seja, a princípio não é um ato médico. Sendo assim, ainda mais importante desvincular o atendimento de procedimentos tecnicistas e mecânicos. 

Essa preocupação em relação ao respeito do protagonismo da mulher está diretamente relacionada com a questão de gênero. A experiência do parto, ou mesmo da cesariana, só pode ser vivenciada por mulheres*. E, em razão da sociedade patriarcal a qual estamos inseridos, muito do machismo é refletido na assistência ao parto. Ou seja, a mulher é subjugada e sua vontade desconsiderada. Não é à toa que o sistema obstétrico, de um modo em geral, costuma ser muito violento. Portanto, em vista dessa realidade, outros princípios também devem ser considerados para que se possa nomear a assistência ao parto de humanizada, como o respeito à autonomia e ao protagonismo da mulher.

Isto posto, é de fundamental importância a reflexão sobre o que é autonomia e protagonismo feminino.
Dra. Bernadete Bousada respeitando o tempo da gestante e do bebê

Autonomia no contexto da assistência humanizada ao parto pode ser compreendida como a capacidade de decidir livremente, de realizar escolhas sobre o seu próprio corpo e a sua sexualidade nas variadas dimensões e resultados em que o parto pode se dar. Nesse sentido, protagonismo pode ser compreendido como o exercício da autonomia.

Portanto, sendo o protagonismo um exercício da autonomia que é a capacidade de escolher livremente, todas as escolhas devem ser respeitadas. Inclusive a escolha por não parir. É importante frisar aqui que autonomia é uma palavra radical, ou seja, ela não é mediada ou negociada. Muitos profissionais fazem crer que a escolha pela cesárea partiu da mulher quando, na verdade, ela baseou a sua decisão em informações falsas prestadas por eles. Infelizmente, isso é bem comum. Portanto, quando falo em respeito a escolhas, estou falando de escolhas legítimas e não viciadas em informações falsas, ainda que seja preciso debater essa manipulação impingida por profissionais de saúde.

Portanto, o exercício da autonomia pode ser feito, inclusive, de forma que precarize nossas vidas. Fumar, por exemplo, é uma escolha. E as pessoas a fazem mesmo sabendo de todos os males que esse hábito pode causar. Então, autonomia e protagonismos podem antagonizar com bandeiras da humanização do parto**.

Uma cesárea eletiva pode ser realizada de forma autônoma e protagonizada? Não podemos negar que há mulheres com acesso a informação e a profissionais de saúde qualificados, independentes, a par dos debates de humanização, que circulam em espaços de militância e que, ainda assim escolhem por uma cesárea mesmo no início da gravidez, sem qualquer indicação para tal. Essa escolha pode ocorrer por motivos subjetivos – preparar-se para o parto exige uma disponibilidade***, ainda que mínima, e nem toda mulher está disposta a isso. Parto pode ser intenso e mexe com muita coisa – no plano sentimental, espiritual, psicológico, inconsciente ou mesmo pode evocar um passado. Além disso, considerando a realidade do sistema obstétrico em que a violência obstétrica de tão normalizada é normatizada, a escolha pela cesárea eletiva pode ser considerada até uma fuga legítima. Ou seja, a escolha pela cesárea nem sempre representa uma abdicação pela autonomia e protagonismo.

E é nesse ponto que o conceito de sujeito ativo ou passivo se perde. Porque, nestes casos, se há verdadeira escolha, existe também autonomia e protagonismo e, deste modo, não posso falar em passividade na relação. Posso, até mesmo, estender esse debate para a questão do empoderamento para parir. Há mulheres que escolhem se empoderar em outras áreas da vida (seja no trabalho, seja em alguma militância, etc) e não estão dispostas a se encher de poder para parir. É uma escolha, e é legítima.

Imperioso lembrar que estamos falando de nascimento, de vida e, neste âmbito, independentemente de qualquer tomada de decisão, há riscos e se há riscos não há garantia de resultados. Ora, precisamos falar que a assistência humanizada ao parto inclui casos de óbito fetal. Se há gestação, há risco de aborto espontâneo em qualquer fase, então, também é preciso inserir no debate a assistência humanizada à mulher em situação de abortamento.

Ainda, é importante ressaltar que mesmo em gestações saudáveis e tranquilas a cesárea pode ser necessária. A própria OMS recomenda que 15% de cesáreas é um número que representa as gestações que têm que ser interrompidas via cirurgia. Portanto, uma assistência humanizada não pode estar atrelada ao resultado, visto que assistência é processo e não o fim em si. Este processo pode se iniciar nas consultas de pré-natal ou mesmo no início do trabalho de parto, ou seja, o atendimento humanizado antecede o resultado. Sendo assim, negar a humanização do parto, ainda que não haja parto, significa negar o processo em razão do resultado. 

Portanto, em se falando de respeito à autonomia e protagonismo feminino, não pode existir um pacote de procedimentos que caracterizem a humanização do parto. Humanizar o parto é respeitar subjetividades, de forma a se comprometer com todo o processo de nascimento. E, dentro desta reflexão, entendendo que o que deve ser priorizado é o processo e não o fim, não seria mais correto o uso do termo “humanização do nascimento” no lugar de “humanização do parto”?


Este debate pode parecer à primeira vista superficial na medida em que se questiona conceitos, contudo, há muitas implicações práticas:

1.    Sim, é possível o atendimento humanizado mesmo em se tratando de cirurgia cesárea. Aceitar isso é entender que o conceito da humanização da saúde é muito mais abrangente daquele da humanização do parto. É respeitar todo o histórico de luta dos profissionais da saúde que trabalham pela humanização. No entanto, falar em atendimento humanizado na cesárea não é o mesmo que cesárea humanizada. Sendo a cesárea um ato médico e também por ser uma cirurgia é importante que as evidências científicas e a boa técnica sejam observadas. Portanto, a cesárea em si não pode ser humanizada, mas a assistência ao nascimento que culmine numa cesárea, principalmente antes e após a cirurgia, podem ser humanizados.

2.    Receber um atendimento que respeite sua subjetividade durante a gestação e trabalho de parto pode ser fundamental para o exercício da maternagem, para o sucesso no aleitamento materno, principalmente, na fase puerperal.

3.    Entender o trabalho de parto e sua assistência como um processo que pode não acabar com o resultado desejado, também nos livra da sensação de fracasso. E, se isso porventura aconteceu com você, indico muito a leitura desse texto, que considero uma das coisas mais lindas que já li no espaço virtual.

4.   Ainda que se escolha por uma cesárea, conceitos da humanização do parto podem ser estendidos para o atendimento pós nascimento, dispensando intervenção desnecessárias no bebê e estimulando o contato e a formação de vínculo entre mãe e bebê.

5.   Refletir sobre essas questões e sobre a escolha da assistência a ser prestada auxilia na garantia do exercício da nossa autonomia. Porque não adianta escapar da tutela do cesarista para ser tutelada por profissionais que se intitulem  “humanizados” mas que em realidade não respeitam a autonomia e o protagonismo feminino.


*Esse texto é reflexo de um lugar de fala de mulheres cisgêneras, portanto limitado pela experiência do privilégio. Apesar de estarmos falando aqui exclusivamente de mulheres cis, entendemos que é importante avançar numa reflexão transfeministas - em outros países em especial no Canadá tem crescido a participação de pessoas trans no debate sobre assistência ao parto e aleitamento.

** Respeitar a escolha pela cesárea não significa desconhecer ou desconsiderar o fato que a cirurgia é mais arriscada tanto para mãe quanto para o bebê. E, além do risco, priva os dois de gozarem dos benefícios de um parto natural.

***Especialmente em um contexto em que a violência obstétrica é presente e há possibilidade, ainda que seja privilégios, de optar por parto domiciliar, hospitalar ou em casa de parto.

Este texto foi escrito em parceria com a grande amiga Xênia Mello. E ainda contou com a participação da Ana Rossato, Bruna Betoli, Mariana Elis, Helenice Assis Vespasiano, Laura Silva, Stella Siqueira Campos e Lidi Berriel (sempre tão necessária nas minhas reflexões sobre o movimento da humanização e sobre violência obstétrica).

Agradeço à Dra. Melania Amorim por fomentar o debate. Para quem não a conhece, ela é uma obstetra ativista pela humanização do parto. E como se isso não bastasse, ainda escreve esse blog que é recheado de informações sobre gestação e parto, e quando a gente não entende, ela desenha aqui.

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terça-feira, 24 de março de 2015

Sobre a ânsia de se punir crianças



E assim como a fábula do eterno retorno, de tempos em tempos volta à tona a discussão acerca da redução da maioridade penal. Hoje mesmo (24.03.2015) a Comissão de Constituição de Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados está realizando uma audiência pública para discutir sobre o tema.

Crescemos com medo. Somos ensinados a temer. E à medida que esse pavor cresce, cresce com ele a sede por vingança. Por punição. Porque somente com a sensação de vingança é que conseguiremos dormir em paz. Será?

E nesta ânsia por punição não escapam nem as crianças e adolescentes. Embora sejam elas as maiores vítimas, inverte-se a lógica da opressão e eles passam a figurar como nossos algozes. Em 2012, 11 mil crianças e adolescentes foram assassinados! Neste mesmo ano, 2,9 mil crimes foram cometidos por eles:
























A despeito de acreditar que a punição de adolescentes em nada ajudaria a confortar essa sensação de medo, devemos lembrar que a população carcerária brasileira é praticamente composta de negros e pobres. Admitir a redução da maioridade penal implicaria, portanto, em selecionar quais adolescentes que iríamos tirar do nosso convívio: o jovem negro e pobre. A nossa punição é, com certeza, bastante seletiva.

A violência contra a criança é silenciosa não só pela dificuldade prática da denúncia mas por conta da dependência emocional que envolve a vítima perante seu agressor. Isso sem falar na violência psicológica que a grande maioria das crianças é submetida. Violência silenciosa que, por muitas vezes, nem mesmo a vítima se dá conta da intensidade do trauma vivido.

No Brasil, apenas no ano passado foi sancionada lei que proíbe que os pais batam em seus filhos. Esta lei gerou grande revolta pois muitos pais reivindicavam seu "direito" de violentar os filhos. Como se o corpo deles os pertencesse. Como se a violência fizesse parte de uma suposta educação. Como se agredir ensinasse alguém a ser bom.

Na Alemanha, uma lei muito parecida vigora há mais de 15 anos. Ainda assim, naquele país, por semana morrem 3 crianças vítimas de violência doméstica. Vítimas das pessoas que deveriam as proteger. Assassinadas por aqueles a quem o Estado entregou sua tutela.

Como se não bastasse esse número sem fim que só comprova como a sociedade oprime e violenta um grupo que não tem como se defender, o discurso da severidade sempre está em pauta. Urge-se para que os pais sejam mais austeros. Invoca-se um tempo imaginário em que as crianças eram mais obedientes e, claro, fala-se da atual permissividade dos pais.

Esta semana me deparei com uma reportagem que é, no mínimo, desonesta. O jornalista traz números e afirma que em três anos ocorreram um total de 14.302 agressões de filhos contra progenitores. Claro que a causa dessa violência foi atribuída à permissividade dos pais, porque nunca se relaciona a violência contra criança com a violência por elas praticada quando da adolescência.

Fiquei intrigada com esse número de pouco menos de 15 mil casos de agressões de filhos contra pais em três anos, ou seja, cerca de 5 mil casos por ano. Em uma busca rápida, fui atrás do número inverso. Quantas crianças são agredidas por seus pais anualmente no Brasil? A resposta? 170 mil denúncias de agressões de pais contra filhos apenas em 2013! 360 crianças e adolescentes são violentadas por dia. 

Que tipo de permissividade é essa que autoriza tamanha violência contra alguém que não tem condições físicas tampouco psicológicas para se defender? Que tipo de dever de educar permite que a pessoa que mais deveria amar é aquela que mais violenta?

Através de muitas conversas com a Letícia Penteado, eu tomei conhecimento do que era adultismo. E ela sempre repete uma frase da Magda Gerber que me marcou demais: "Muitas coisas horríveis foram feitas em nome do amor, mas nada horrível pode ser feito em nome do respeito". 

E voltando ao tema inicial eu me pergunto, quando passaremos a respeitar a infância e pararemos de querer punir os adolescentes por repetirem a violência que praticamos contra eles? Quando elevaremos a criança a condição de indivíduo merecedor de respeito tal qual um adulto?

Editando para acrescentar o texto da Eliane Brum que vai de encontro ao que defendi aqui: "Quem está violando quem? Quem não está protegendo quem? Quem deve ser responsabilizado por não garantir o direito de viver à parte das crianças e dos adolescentes?"


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